segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Acostumai

Let's Stay Together - Trinah (Cover do Al Green). Clique e ouça.

Endireitou minha coluna na posição certa, sentou-se de lado no meu colo e estendeu a mão devagar para uma caneta em cima da mesa. Puxou uma folha com as pontas dos dedos e quase perdeu o equilíbrio. Passei minhas mãos ao seu redor e a incentivei com os olhos fixos no papel em branco. Concentrada no preceito que iria compartilhar, ela escreveu em letras de fôrma que viver - e sublinhou com força o verbo - é sofrimento, acostumai. Pousou a caneta no canto da folha, recolheu as mãos discretamente como uma criança arrependida de sua travessura e fitou minha expressão, mordendo o lábio inferior. Ela pareceu incomodada com a ausência de palavras entre nós, mas era orgulhosa o suficiente para não quebrar o silêncio. Apertei suas coxas sob as minhas e a trouxe mais para perto do meu tronco, deixando que jogasse todo o seu peso no meu corpo. Ela encaixou seu queixo perfeitamente na curva do meu pescoço, roçou seu nariz gelado na minha barba como quem sabe muito bem o que está fazendo, apoiou seus braços em meus ombros em um abraço zeloso e acariciou meus cabelos da nuca. Segura de si, ela sabia que estava no controle da situação agora. Pude soltar minhas mãos por um momento e escrever mais uma frase embaixo da sua, mas antes que ela pudesse ler, segurei firme suas costas e levantei suas pernas em um movimento rápido, larguei a folha na sala e a levei para o quarto sem hesitação. Ela só pôde matar a curiosidade quando o dia amanheceu de mansinho e eu finalmente preguei os olhos: vou trazer mais vida ao seu sofrimento e espero que você se acostume com isso.

sábado, 21 de novembro de 2009

November Rain

November Rain - Guns N' Roses. Clique e ouça.
But lovers always come
And lovers always go
An no one's really sure
Who's letting go today walking away
Dizem que chuva boa mesmo é aquela que lava nossa alma. Aquela que penetra em nossos poros, que limpa não somente as impurezas, mas os problemas. Aquela que nos faz esquecer da vida, que nos faz curtir o momento, aquela que, de alguma maneira, relaxa seu corpo. Boa é a tempestade que nos castiga por inteiro. Quando cai forte e gelada com seus pingos grossos, que nos faz parar para pensar nos erros, que nos obriga a enxergar quem é a pessoa em quem nós podemos confiar cegamente: em nós mesmos. Faz parte do aprendizado me acostumar com o tempo ruim. É por isso que venho experimentando vários tipos de chuvas esse mês. Dessas que caem sem saber o porquê, dessas inesperadas que aliviam os músculos, das carinhosas que nos molham da cabeça aos pés, elas sempre nos relembram o quão insignificantes nós humanos somos. Deve ser para isso que a chuva existe: para os seres humanos atrevidos que caem embaixo dela saírem revigorados. Uma segunda chance para começar seu dia, sua semana, seu mês, seu ano, de novo. Tudo de novo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sem querer querendo...

* Imagem: I Can Read.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ausência

Don't Let Me Be Misunderstood - Nina Simone. Clique e ouça.
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 14 de novembro de 2009

Dois anos, dois minutos

Between Two Lungs - Florence and The Machine. Clique e ouça.

Ela desceu as escadas atrasada, fugiu da chuva e entrou, por coincidência, naquela mesma livraria. Sacudiu os braços para se secar e, chamando a atenção de quase metade do grupo que assistia a uma palestra, ela o viu de relance. Levou apenas um segundo sem os pés no chão e logo sentou a bunda na primeira cadeira que encontrou. Segurou forte o assento para não tombar de susto. "Impossível, faz quanto tempo? Uns dois anos, eu acho. Será que ele me viu? Puta merda. Tanto faz. Foco, Priscila, foco." Levantou o queixo na direção do palco, mas não conseguiu segurar o olhar curioso que procurava o topo da cabeça dele na terceira fileira da direita. Quase dois anos haviam se passado. Lembrava perfeitamente dele. Poderia reproduzir cada tatuagem de seu corpo se tivesse o dom do desenho. Que droga, poderia reproduzir essas tatuagens até com a ponta da língua, se quisesse. "O tempo fez o que tinha que ser feito, não há mais nada que eu possa fazer. Somos pessoas totalmente diferentes agora. Ok?" E aquilo que demorou dois anos para ser afastado foi novamente unido em menos de dois minutos. Adoro esses números cabalísticos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dragão

Escape From Dragon House - Dengue Fever. Clique e ouça.

- Você é um dragão.
- Obrigada pelo elogio...
- Não tem nada a ver com a sua beleza e sim com o modo como se domestica um dragão. Deitada aqui no meu colo, você é minha e ponto final. Mas só pode ser minha de verdade se você quiser ser.
- Nesse caso, eu já estou domesticada?
- É aí que está o X da questão. Não existe uma maneira de domar ou amarrar ou submeter um dragão às suas vontades, isso é praticamente impossível. Ele é livre por natureza e assim deve continuar. O que podemos fazer é um acordo pacífico com o animal. Consegue entender a minha linha de pensamento?
- Ok. Então você quer fechar um acordo com qual objetivo, afinal?
- Para montar no dragão, é claro.

Além desse diálogo insone, ando tendo outras conversas noite afora.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sem Mundo

As coisas mais bonitas são sempre aquelas ditas da boca pra fora. Difícil é esperar que aquilo dito se transforme em verdade absoluta. Não sei mais em quê acreditar, não sei mais nem se devo acreditar. Quem ama, espera? Espera para viver ou vive para esperar? Sei que as coisas tão mais lindas estão sempre onde você está. Onde você está? Onde quer que você esteja. Não tê-las é como enxergar somente a feiúra das pessoas e não poder fazer nada para mudá-la. É como querer abraçar um mundo sem ter braços e escolher ficar sem o mundo, simplesmente para não sofrer a dor de não poder abraçá-lo...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nêmesis

Sin Mi Diablo - Babasónicos. Clique e ouça.
"La verdad es que yo no soy nada sin mi diablo..."
Súcubo
"Acordei sem nunca imaginar que alguém sentiria minha voz desse seu jeito. Quem diria que seria você, estranha como era até se sufocar no pára-quedas com que se aflorou numa das únicas árvores da minha vida. Como pedra mansa em lago de vidro, ela me dá tudo quente e espesso desse jeito. Cintura no batente. Ela e ela. Mãos sobre as mãos. Coisa que não se fala: se faz. Se faz toda de chocolate branco. De chocolate porque é efêmero como ímpeto de homem e impulso de mulher. E branco porque é maldição. Armadilha. A vida é feita disso: de nós. De surpresas e escolhas." por B.
Íncubo
Adormeci sem nunca imaginar que não acordaria mais desse sonho. Inocentemente, fiquei presa na trama onírica e não consegui mais despertar ou quiçá fugir daquelas histórias. Tive que viver uma por uma. Pulei sem pára-quedas do alto de um avião sem medo de me machucar. Mergulhei fundo em um lago congelado pelo inverno só para apaziguar os desejos. Plantei uma semente ao lado da sua árvore para vê-la germinar. Nada deveria me afetar de fato. Puro equívoco. Foi dos sonhos que ele surgiu e é por causa dos mesmos sonhos que ele se vai. Ele e ele. Quem diria que ele seria você.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De mansinho

E agora ela vem assim, requebrando de mansinho em minha direção*, enquanto seus passos compridos de gazela faceira cessam na posição de lótus ascendente. Antes que seus olhos se perdessem fixos no teto, verga-se para trás e lança suas mãos em seu próprio contorno. Estremece o chão e continua intacta. Há quem pressinta o terremoto repartindo as paredes em rachaduras desiguais e injustas. Há quem queira investigar de onde vem o equilíbrio daquela mulher, quando, na realidade, deveria procurar abrigo imediato. Há quem peça para socorrer aquele corpo frágil com um abraço fraternal. Contudo, toda tentativa de contato é declinada. Todo esforço de consolo é ignorado. E agora ela fica assim, me quebrando de mansinho sem nenhuma precaução, enquanto minha casa perde os alicerces e desmorona ao seu redor. Tijolo por tijolo, tudo fica fora do lugar, menos a silhueta feminina que permanece incólume sob a luz azulada da lua crescente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alternativas

Qual a alternativa correta para o seguinte trecho:
Se reencontraram. Então se olharam e foi só o que fizeram por instantes. Foi ele quem desviou os olhos dessa vez, sorrindo e perguntando: "Pronta pras nossas últimas horas juntos?".
Ela sorriu e...

1) ... respondeu: "É, acho que estou pronta, sim." Mas, subitamente, não tinha mais vontade de sorrir, pois sabia que aquelas últimas horas seriam realmente as últimas horas dos dois juntos, uma decisão definitiva que ela odiava saber, e ele não. O sorriso dele cortava seu coração.

2) ... demorou alguns instantes para responder. Pensou em todos os momentos que passaram e mais ainda naqueles que nunca iriam acontecer. Nunca estivera pronta para se despedir. Nunca quisera ficar longe. Aquele gosto, aquela voz, aquele toque. Partida. E então, pediu a ele que olhasse em seus olhos, sem desviar desta vez. E assim ficaram por mais alguns segundos. "Não queria que fossem as últimas. Poderia perder uma vida te olhando, contemplando seu sorriso e sentindo seu gosto. Mesmo que em silêncio." Beijaram-se.

3) ... disse "Não", arrastando-o pra dentro do metrô. De olhos fechados, os dois passearam com os indicadores até encontrar seu destino no mapa dentro do vagão, a despeito das pessoas em volta, que os achavam ridículos. Talvez nunca tivessem realmente estado apaixonados, eles pensaram.

4) ... disfarçadamente secou a lágrima que insistiu em escapar de seu olho. Não, não estava preparada. Puxou-o para bem perto de si, entrelaçou seus braços no pescoço desnudo e, na pontinha dos pés, chegou ao seu ouvido e sussurrou: "Estou apenas preparada para as melhores horas de nossa vida."

5) ... afirmou: "Sim, querido. E o que antes era uma brincadeira rotineira do casal, estava agora para se concretizar. Mal sabia ele que, nas regras do jogo, só ela perguntava. Levantou-se, vestiu suas roupas e saiu do quarto sem responder a mais nenhuma pergunta.

6) ... fechou os olhos por um instante. Em sua mente, passou feito um relâmpago tudo o que aprendeu com ele, todos os planos que construíram juntos, todas as lágrimas derramadas e os doces momentos de prazer que vivera. Abriu os olhos e disse: "Não, ninguém está pronto. Mas seguirei meu caminho com a tranquilidade em meu coração de que esta história teve um ponto final."

7) ... aceitou. Não porque quis abraçar o fim iminente, mas porque ignorava seus temores quanto a isso. Partiu de encontro ao destino, tal qual um soldado que se ergue da trincheira e segue sem medo em direção ao fronte inimigo. E no fundo, talvez o fim seja só uma parte da história, ou um pedaço do começo.

8) ... deu as costas. Não, não estava pronta, nunca estaria. E foi justamente por não estar pronta que jamais o reencontraria novamente. Melhor seguir uam vida inteira sofrendo do que ter algumas horas para colocar um ponto final em algo que jamais deveria terminar.

Respostas intercaladas entre 4 homens e 4 mulheres. Qual a sua?

sábado, 24 de outubro de 2009

Dia do Amor

Floradas de Amor - Duo Moviola. Clique e ouça.

Ninguém precisa de ninguém para ser feliz. A felicidade não é concreta, não acontece todos os dias antes do chá das cinco ou após a novela das oito. Ela é feita de momentos, pequenas doses de alegria que muitas vezes ficam guardadas na memória durante muito tempo, ou para sempre, como preferir. Saiba que amor não é sinônimo de subordinação. Se você precisa estar com uma pessoa e necessita do amor dela para continuar vivendo, você não está amando. Isso é dependência e para isso existe tratamento, acredite. Amar significa que você pode viver muito bem sem a pessoa e continuar sua jornada por seus caminhos e atalhos naturalmente, mas por ter tamanha afeição é que você decide compartilhar uma vida com ela.

É a sua escolha, confie em sua intuição.

Isso também me faz lembrar de uma personagem do filme "O Ilusionista". Ela dizia que, em muitos dias, o seu marido parecia ser outra pessoa e isso fazia com que os dias se alternassem entre aqueles em que ele a amava e aqueles em que ele não sentia absolutamente nada. Quando indagada de seu sentimento a respeito da situação, ela confessa que não se importava com o fato dele ser um poço de inconstância, simplesmente porque os dias em que ele a amava eram os dias mais especiais da semana. Ela espreitava calada ao lado da cama, mal conseguia respirar de ansiedade, observava o semblante recém-desperto de seu amado e torcia para aquele dia ser o dia do amor. Se não fosse, sempre haveriam outros.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Amor a sangre y fuego

Pura Sangre - Jarabe de Palo. Clique e ouça.
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de Enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda
"Soneto LXVI" Cien sonetos de amor - Tarde (1959)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Criada-muda

Silent Spring - Massive Attack. Clique e ouça.
Súcubo e Íncubo
O silêncio do telefone é tão estridente que trinca o retrato e o copo. O whisky de anteontem escorre pela gaveta e, dentro dela, lava uma bíblia imunda. Mesmo no escuro, chuto o criado-mudo bem longe para exorcizar a raiva. Mergulho na cama e escondo a saudade do seu gosto costurando minha língua no colchão. Para a minha própria segurança, guardo embaixo do travesseiro a vontade de te morder. Embalo meu corpo no edredon como se fosse um casulo precoce de evolução tardia, uma tentativa frustrada de sufocar meu pensamento de uma vez por todas.

Ali dentro, rastejo e me engrenho em cabelos e pêlos culpados sob minhas roupas ausentes. Elas não estão aqui agora como sequer estiveram na cena do crime, mas justamente por isso, sofrem as conseqüências de nossos atos como cúmplices dolosos ou testemunhas negligentes. Esqueço-me de que ainda é o mesmo colchão e tento me livrar do seu cheiro como um imolado que busca alívio rolando de um lado pro outro nas brasas.

Ah, Camões... O fogo que arde invisível também é a venda que cega o espelho. Primavera taciturna essa que começa. As manchas da maquiagem nunca mais sairão desse maldito travesseiro, esses borrões de blush azul e sombra preta escorrida em lágrimas de fada. Entretanto, deles é que sinto brotarem minhas asas. Atrofiadas e delicadas como gravetos feitos de alma, são brotos de liberdade semeados pelo tesão narcisista. Uma muda. Muda de amor próprio, de respeito. Muda de vontade de voar pra bem longe de mim.

domingo, 18 de outubro de 2009

Amor de Outono

Assim como o amor de verão, o de outono passa a cada três/quatro meses. Não fica nada por se fazer e não há nada que possa ser feito. Seu término é iminente. Deixa lacunas que se renovam a cada mudança de estação, e esperanças de que na próxima tudo seja diferente. Não foi feito para durar e, se fosse, perderia todo o significado de sua sazonalidade. Há de se conformar e aceitar o fato de que passou e ponto final. Lembre-se de que manter souvenir dessa época fará com que você se relembre da efemeridade do amor a cada instante de saudade, mas isso é um risco que vale a pena correr.

* Imagem: I Can Read.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Rua Nantes

Nantes - Beirut. Clique e ouça.

Anoitece na rua recém-asfaltada. O corpo insiste em acender o desejo logo no primeiro lampejo de luz elétrica. Só havia uma saída de emergência para o veículo estacionado ao lado direito. Local perfeito para a apresentação de final de outono. As casas alinhadas são vigiadas pelos cachorros vadios de focinhos cinzentos e pela vegetação agitada à espera do espetáculo. Nenhum deus, dito e repetido por inúmeros nomes, escreve destinos - ou roteiros - assim tão precisos. Não há disfarce nem codinome, a vontade não se engana, muito menos se esconde. Desperta a sentinela interior e haja paciência para saciá-la. Não tem volta. A iluminação fraca e amarelada dos postes da praça dão vida ao picadeiro. A sinfonia dos ventos nas folhas caídas pela estação passada marca o ritmo das palmas para o começo da exibição. Os palhaços, devidamente alongados e aquecidos, começam a diversão ao avesso: despem-se de suas fantasias, tiram a maquiagem e expõem toda a sua ardileza. A platéia de um homem só agradece o número com aplausos fervorosos ao lado da janela embaçada do banco traseiro, e aguarda ansiosamente uma nova visita do circo à travessa da Rua Nantes.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tempos verbais

Meninos e Meninas - Legião Urbana*. Clique e ouça.

Eu canto em português errado. Acho que o imperfeito não participa do passado. Eu troco as pessoas, troco os pronomes.* E continuo não somente cantando, como também escrevendo errado. E troco as frases, troco de casa, troco de sobrenome. Nunca conheci um pretérito que fosse mais que perfeito, tampouco presente ou futuro. Nunca discuti grego antigo ou aramaico ou qualquer língua morta. E no meu futuro, eu não anseio por nada que venha do pretérito, porque mesmo o mais que perfeito está contaminado pelo impessoal. Preciso aprender a controlar meu imperativo negativo e passar a me colocar no gerúndio do infinitivo. Entrementes, prossigo no equívoco da conjugação. E troco as sentenças, troco de roupa, troco os verbos. Vou trocando até que a sintaxe encaixe, ou alguém encaixe em mim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Loop

Cryin' - Aerosmith. Clique e ouça.

Chorei até o peito doer, abafei os soluços entre as mãos, gritei em silêncio. Pés descalços, mãos congeladas, músculos retesados. Desgrenhada e incrédula, mirando o nada, lábios ressecados balbuciando estrofes bobas de músicas mais bobas ainda, espasmos incontroláveis percorrendo o corpo. Um grande buraco negro surgiu no meio de mim mesma. Ele não tem predileção e nunca fica satisfeito, vai sugando e tragando tudo o que eu tenho e tudo o que eu já tive de bom. Deixa uma espécie de desesperança clandestina no fundo do meu âmago, aquela dor rasa que sempre lateja para lembrar o porquê do meu sofrimento. Você. Ou a falta que você me faz, ou fez, ou vai fazer. Você. Ou a vontade que eu tenho de você, ou tive, ou vou ter. Você. Ou o loop que minha espera por você criou em meus pensamentos vazios. A lágrima prova que ainda sou tua; o suspiro preso entre os dedos prova que ainda consigo ser; o grito mudo prova que não quero mais ser. E se não for tua, não serei de mais ninguém.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amputação voluntária

Back to Black - Amy Winehouse. Clique e ouça.

Depois de meses afastado, ele reapareceu na minha vida como quem não quer nada, mas eu tenho certeza de que agora, mais do que nunca, ele quer tudo e mais um pouco. Veio investigar meu presente, ressuscitar meu passado, atordoar meu futuro. Dos momentos que vivemos, ficaram somente as palavras que poderiam ter sido ditas e não foram. Das palavras que reinventamos, nenhuma deve ser novamente repetida. E das repetições absurdas que fizemos, ora, sabemos que insistir no mesmo erro é burrice. Observar suas feições de soslaio e sentir seu corpo tão próximo do meu faz com que minha memória reviva lembranças que eu jurava que já haviam sido apagadas. É como amputar um braço voluntariamente e, ainda assim, senti-lo pulsando ao lado do corpo, como uma continuação de vida inexistente ou como um pedaço eterno de meu eu-lírico fracassado.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Caixeiro viajante

Acabo de chegar. Vim lhe apresentar uma possibilidade de compra única. Trouxe aqui comigo essa oportunidade irrecusável de amar sem ter que esperar e de poder encontrar nas palavras uma cumplicidade sem igual. É tarde, eu sei, mas vim assim que soube que precisavam dos meus produtos por essas bandas. Não me pergunte quem solicitou minha presença, basta saber que aqui estou ao seu dispor. Escondo em minhas mangas alguns truques batidos, mas não sou mágico, muito menos palhaço. Cheguei agora e posso aguardar algum tempo até que você se decida. Não se esqueça de que eu ainda tenho muitos locais para visitar e meu regresso é iminente. Mesmo assim, eu espero por você. Só não me confunda com o Cupido, meus serviços custam um certo preço, podemos negociar a forma de pagamento, mas eu não vendo fiado.

* Foto: Waiting for the Moon Parade do Andrew Pearce

domingo, 4 de outubro de 2009

Tom Jobim

Inútil Paisagem - Tom Jobim & Dorival Caymmi. Clique e ouça.
Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar? Pra quê?
De que serve esta onda que quebra?
E o vento da tarde? De que serve a tarde?
Inútil paisagem.

Pode ser que não venhas mais.
Que não venhas nunca mais...

De que servem as flores
que nascem pelos caminhos?
Se meu caminho sozinho é nada...

Letra daqui.

sábado, 3 de outubro de 2009

Rodeio

Rodeo Clowns - Jack Johnson. Clique e ouça.

Aprendi, de um jeito ou de outro, que o que conta são os atos e não as palavras. O que as pessoas dizem de nada vale, você tem que reparar nas suas ações, no que elas realmente fazem. Eu ganhei um livro que não tem dedicatória, porque dedicatória não se pede. Temos que estar preparados para as decepções. Amar é como montar em um touro bravo no meio de um rodeio. Não importa quantos touros você montou, mas quantos segundos você conseguiu se equilibrar no lombo deles. Cair é inevitável, você precisa entrar na arena sabendo que você sempre vai cair. O que difere um amor do outro é a maneira como você se ergue do chão, foge da chifrada e limpa a poeira. Foi por causa do amor que ele se calou e assim permaneceu. Não houve nenhuma explicação, mas creio que sentirá a lacuna da ausência diária. O amor faz falta, mas ele também faz calar. Eu ganhei o silêncio de presente de despedida, porque, assim como a dedicatória, silêncio não se pede, muito menos se contesta.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Perdida-da-silva-sauro

Ridiculous Thoughts - The Cranberries. Clique e ouça.

Dos quereres daqueles que (re)apareceram na minha vida em tão curto tempo: um me quer para demarcar o território de predador, o outro me quer para elevar a auto-estima arruinada, aquele me quer para matar uma carência esporádica e, por último, um me quer para reerguer sua espontaneidade há muito adormecida. Quando, na realidade, ninguém me quer de fato. Ninguém quer a pessoa que está aqui dentro, o corpo que anseia por carinho, a mente que procura por exercício, o indivíduo que necessita de companhia, tornei-me descartável. São quereres egoístas os deles e, inclusive, os meus. Sim, chego a acreditar que estou perdida quanto aos meus próprios quereres pessoais e amorosos, logo eu, que estava me acostumando a tomar decisões certeiras, agora me sinto prostrada. Eu já não sei mais o que eu quero, pois eu acreditava que o que queria era o que ele queria. Mas quem disse que ser feliz é algo fácil de se conquistar?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tão, tão fraca

Old Stone - Laura Marling. Clique e ouça.

Embora eu não lembre muito bem, sim, deve ter havido uma vez, sinto uma vaga lembrança chegando. Um único instante em que nos encontramos, claro que deve ter havido muitos outros momentos como esse, aqueles em que nos esbarramos na rua sem nem imaginar quem é o outro e sorrimos e nos desculpamos e seguimos em frente como se nada tivesse acontecido em nossas vidinhas tão, tão comuns. Todavia, deve ter havido um breve momento antes disso tudo, aquele em que nos encontrávamos tão vulneráveis, tão completamente abertos e receptivos para encontrar alguém.

E posso falar de nossa vulnerabilidade porque sei muito bem que você não me esperava em sua vida, mais ou menos como eu não poderia imaginar que você cairia de pára-quedas na minha. Nós não suspeitávamos do rumo que tudo poderia seguir e eu me lembro desse momento ignorante - santa ignorância - pois todo o tempo que tive sem você, eu lembro, eu consigo me lembrar, tudo antes de você aparecer é muito claro pra mim. Às vezes me pergunto como pudemos nos jogar assim em tudo aquilo que estava acontecendo sem precaução alguma, sem um backup, sem tecla Esc, sem hesitar nem um momento, sem nenhuma tentativa de resistir ao inevitável.

Não porque amar seja uma coisa terrível ou porque esperávamos ficar profundamente apaixonados a ponto de esquecer tudo e todos - Deus me livre! -, mas porque o amor é tão sem sentido e não esperávamos ficar marcados pro resto da vida. O resto, depois que pereci por ti, depois daquela primeira vez e logo após outras e muitas outras, o tempo conseguiu enterrar debaixo de várias camadas as lembranças e tudo começou a ficar confuso e nublado, tudo tão, tão difícil de recordar. Acredito que minha memória acabou se traumatizando, porque foi a primeira vez que a perdi e foi contigo. Por isso que hoje ela é assim tão, tão fraca. Medo de ser perdida novamente.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Procuradora


Não te procuro mais entre minhas mensagens secretas em redes sociais, entre meus baús empoeirados ou entre minhas pilhas de livros. Não te procuro mais para compartilhar uma piada, um sorriso, uma lembrança ou um abraço apertado. Não te procuro mais para trocar figurinhas, para falar sobre o tempo ou para massagear minhas costas. Não te procuro mais como companheiro, como irmão, como amigo ou como amante. E, cada vez que eu decido não te procurar, cada vez mais eu te encontro embrenhado nos momentos mais importantes da minha vida, escondido nos mínimos detalhes do meu dia-a-dia, tatuado em cada centímetro da minha pele ou morando em cada suspiro longo que sai do fundo do meu âmago. Não te procuro mais porque você pediu assim e agora não tenho mais o que procurar.

domingo, 27 de setembro de 2009

Par ou ímpar

Nunca se acostumou com o conceito de casal, quando está com ele, concentra-se em manter o corpo em pé, apesar da síncope que sempre insiste em desfalecê-la. Seu cérebro não mais respeita suas ordens e trata de mandar sinal para o corpo involuntariamente. Primeiro brinca com as pernas numa dança sem ritmo definido com tropeços a cada esquina. Depois aperta suas mãos ao redor do corpo, numa tentativa de proteção sufocante, mas, logo em seguida, mexe com a leveza dos braços, transformando-os em asas erguidas ao vento. Seus pulmões se apertam e dificultam a respiração, como se faltasse ar para oxigenar o sangue e facilitar o pensamento. Seus olhos ficam pesados e sua visão turva, ambos são mantidos fechados só para aguçar os outros sentidos que não tardam em falhar. Seu cérebro parece punir todos os outros órgãos e membros que são pares em seu corpo, só para que ela perceba que nessa vida nada consegue e ninguém deve ficar em número ímpar durante muito tempo.

* Fotografia: Lilya Corneli

sábado, 26 de setembro de 2009

Infinito inabitável

Infinito Particular - Marisa Monte. Clique e ouça.

Você possui um universo inteiro dentro de si mesmo que não deixa de ser intrigante. O seu próprio infinito particular repleto de labirintos, vielas estreitas e estradas sem fim. Todas as suas ideologias e pensamentos estão soltos pelas ruas, enquanto todos os seus preconceitos e tabus estão presos em calabouços esperando a libertação. O que me fascina é que não existe pecado ou virtude, céu ou inferno, muito menos certo ou errado. O que existem são escolhas: as suas, as minhas, mas, principalmente, as das outras pessoas. Tudo é levado em consideração, tudo é motivo para uma análise da situação. "There ain't no sin and there ain't no virtue, there is just stuff people do." Gosto de pensar que já fiz parte desses seus sonhos sem cabimento, tão suas essas vontades e anseios que, de tão reais e absurdas, acabaram se tornando minhas e que, juntos, conseguimos fazê-las caber em algum lugar. Quero que saiba que, independente do que pensem, digam, falem, é em você e somente você - local, mundo e homem - que eu desejo habitar e permanecer.

* Trecho de "Grapes of Wrath" do Jon Steinbeck

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Iosif Landau

Mantra

Não pense nele, não olhe a lua,
nem ouça o gorjeio do sabiá,
não suspire num jardim florido,
não acredite na magia do olhar,
na imortalidade das promessas,
a primavera não é eterna
Eros não é anjo,
Asphodel abre as pétalas em Hades,
assuma a posição do lótus e medite,
Karma, causa e efeito, ilusão e desejo,
nada tem a ver com isso,
Burroughs atirou na maçã, acertou a mulher,
chorou ao ser absolvido,
as esposas de Fábio Júnior são recicláveis,
Homer o cão de Ferlinghetti
com penis cativus em São Francisco
exemplo a ser seguido,
a poeta Mira Bai escreveu faz séculos
a la la, ho, a la la ho,
amor puro é comédia.

(Poema do Livro Preto & Branco, 2002. Iosif Landau.)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Tempo meu

Tempo Rei - Gilberto Gil. Clique e ouça.
01:23
São noites longas como essa - quando a madrugada começa mais cedo do que de costume - que eu me pego pensando na vida e nos anos de distância entre nós. Tua pele tornou-se meu abrigo, meu mapa para algum tesouro escondido. Todo cuidado para manusear-te é pouco.
02:57
Duração das horas, vento lá fora, frio aqui dentro. Preciso cerrar meus olhos e trancar as portas. Sentir-te aqui comigo, imaginar tua silhueta no colchão, teu formato e volume sob o edredon, tua cabeça nas minhas almofadas, tuas mãos nas minhas curvas. Saber que me acostumei contigo e saber que tenho que me desacostumar. Não dormir, deixar que o tempo faça o seu melhor.
03:11
Deixo ou não nosso tempo passar?
Que horas são?

04:44
Toda vez que olho para o telefone, penso em te ligar. Sem motivo, sem o que dizer, só para ouvir o tom grave da tua voz. Lembro do movimento dos teus olhos quando dormes, do teu cheiro de fruta-do-conde. A cada minuto que se arrasta, sinto uma vontade incontrolável de ir a teu encontro no meio da noite só para velar teu sono novamente. Creio que ainda posso te escrever uma carta.
06:09
O dia amanheceu, a noite foi mais longa do que de costume. Rasgo o papel que escrevi coisas sem sentido pensando em te entregar. Uma carta cheia de rasuras, uns desenhos absurdos e umas palavras soltas: minha forma, meu conteúdo, meu sol, minha lua, minha noite e meu dia. Minha intensidade, minha ternura-violenta, meu prazer, minha obediência-resoluta. Meu rei, meu pão, meu porém, minha vírgula, meu senão. Meu tudo, meu nada, nada meu. Seja meu.

domingo, 20 de setembro de 2009

Amoreiras

Relicário - Nando Reis e Cássia Eller. Clique e ouça.

Decidiram apreciar o nascer do sol juntos, motivo suficiente para estender a noite por mais algumas horas. "Por que está amanhecendo? Peço o contrário, ver o sol se pôr. Por que está amanhecendo? Se não vou beijar seus lábios quando você se for." Ela o guiou entre ruas confusas e pegou atalhos que a fizeram se perder do caminho principal. Todavia, em um golpe de sorte, conseguiram encontrar o local perfeito para estacionar: uma clareira arborizada de frente para a represa, uma rua sem saída, uma praça camuflada do resto da cidade. Pararam embaixo de uma amoreira cujos frutos ainda estavam verdes e, enquanto o dia amanhecia lentamente, o sol não quis tocar o espelho d'água para refletir seus raios. Haviam toques demais para um único dia dentro daquele carro. Foi assim que eles aprenderam que amoreiras não dão amoras e, sim, amores.

sábado, 19 de setembro de 2009

Signo

Warning Sign - Coldplay. Clique e ouça.
sig.no
s. m. 1. Astr. Cada uma das doze partes em que se divide o zodíaco e cada uma das constelações respectivas. 2. Lingüíst. Tudo aquilo que, sob certos aspectos e em alguma medida, substitui alguma coisa, representando-a para alguém. (...)
Quando acordei, depois de ter dormido por horas seguidas em um sono agitado como há tanto tempo não tinha, senti falta de algo. Meu corpo dolorido era o resultado natural do que houve anteriormente, cada um arca com as suas responsabilidades do jeito que pode, pensei. Logo, mantive a porta do quarto trancada, mesmo que esse ato infantil de isolamento não afaste nada de fato. O signo que estava enclausurado comigo no quarto à meia luz estampou o edredon xadrez acinzentado como um aviso em vermelho cintilante: o beijo. Condenei-me no exato momento em que almejei o seu beijo, ou terá sido naquele instante em que eu o recebi de surpresa em meus lábios sem nem sequer ter pedido? Tergiverso, terá sido o primeiro ou o último que sentenciou? Não sei bem ao certo, uma vez que o primeiro abriu espaço para uma sucessão de outros, entretanto, o último encerrou com uma despedida relutante e reticente. E foi sob o aviso desse signo, primeiro ou último, que eu selei meu próprio destino.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Diabo a quatro

Cabelos Longos - Alceu Valença. Clique e ouça.
Eu desconfio dos cabelos longos de sua cabeça
Se você deixou crescer de um ano pra cá
Eu desconfio dos cabelos longos

Eu desconfio de sua cabeça
Eu desconfio no sentido estrito
Eu desconfio no sentido lato

Eu desconfio dos cabelos longos
Eu desconfio é do diabo a quatro

Letra daqui.
Eu desconfio dos cabelos do topo da sua cabeça quando não posso trançar meus dedos neles. Eu desconfio do que você me disse ontem à noite e eu concordei. Eu desconfio das maluquices que passam pela sua mente criativa e eu incentivo. Eu desconfio das fases da Lua, do movimento dos planetas, do brilho do Sol. Eu desconfio do nosso amanhã, do nosso hoje, do nosso agora. Quando não existem certezas, minha desconfiança significa voltar algumas casas, juntar fôlego e correr para o salto à distância. Desconfiar é precaver em exagero. Eu desconfio de você e de mim também, pois essa é a forma que eu encontrei para me proteger do diabo a quatro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Necessidades

Súcubo
Sabemos que a energia que existe entre nós é impossível de ser racionada. Está além da nossa compreensão e jamais deve ficar retida. Sabemos que, antes de nós existirmos, não havia a pausa, a hesitação e, muito menos, a restrição de nossas vontades. Sabemos disso tudo, mas saber não é necessário para persistir. Evitamos tocar no assunto, pois não existem respostas para as nossas perguntas. Evitamos entrar em contato um com o outro, afinal, encontramo-nos nas entrelinhas das coincidências. Evitamos falar demais, uma vez que a fala não é necessária para prosseguir.

Nomeamos nossos sentimentos, abusamos do neologismo, criamos um novo tipo de relacionamento. Nomeamos as feições alheias e os obstáculos que aparecem pelo caminho. Nomeamos porque isso não dá significado àquilo que construímos e também não é necessário dar nomes às coisas para continuar a fazê-las. Por fim, acreditamos. Seja em mim, em você, em nós. Acreditamos na esperança do mundo, na premeditação das atitudes, na força vital dos corpos. Acreditamos mesmo sem nenhum beijo trocado e mesmo com toda essa fome não saciada. E acreditar torna-se, enfim, uma das nossas necessidades.

* Imagem: Vital Connection de Manoli López

domingo, 13 de setembro de 2009

Ciúmes, ciúmes, ciúmes

Jealous Guy - John Lennon. Clique e ouça.

Observou atentamente a página cento-e-vinte-e-sete, colocou uma foto novinha em folha de uma mulher sorridente no meio do livro para marcá-lo e levantou-se devagar da poltrona. Montou sua mensuração de últimos livros com os dedos: suspense, tragédia, esperança infantil. Três, ótimo. Procurou um lugar na estante e viu a pilha em que a Bíblia Sagrada era alicerce, acima vinha uma enciclopédia Barsa, depois um atlas ultrapassado, um calendário ainda com todos os meses e no topo da torre havia um relógio cujos ponteiros não se mexiam mais. Empurrou o livro no canto esquerdo.

Desligou o abajur e se apoiou no batente da janela, mas não encostou nas grades de proteção, nem vislumbrou o céu repleto de estrelas, a cabeça tombava para baixo. Começou a fazer sua mensuração do dia: evangelhos, verbetes, xadrez, soneca na rede, trinta páginas do livro. Cinco, perfeito. Estava enjaulado ali e tinha a chave da sua prisão, porém não tinha ânimo para sair de casa. Velho dilema entre poder, querer e precisar. Ele não podia ter a mulher da foto, mas como ele a queria e como precisava de suas palavras agora.

Não conseguia imaginar o que ela estava fazendo, aonde estaria, com quem se divertia. Será que ela me esqueceu? Será que ainda pensa em mim? Será que sente falta da minha voz como eu sinto a dela? Fechou a janela de correr num baque surdo. Decidiu ir pro quarto arrastando os pés nas pantufas encardidas. Entretanto, antes de ranger os dentes e pousar a cabeça pesada no travesseiro macio, fez sua última mensuração da noite: ciúmes, ciúmes, ciúmes. Droga.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Meus poucos saberes:

I
Sei que, quando tu suplicas por paz,
estremeces mudo, pois, verdade seja dita,
em momento algum eu seria capaz
de fugir desse rótulo que tu evitas.

II
Sei que, quando tu sacias tua vontade por ora,
o mundo não pára para sequer escutá-lo.
Teus gemidos não estão sendo gravados agora,
mas tudo o que fazes não deixa de ser pecado.

III
Sei que, quando tu silencias um pensamento,
meu corpo sente tua falta em sobejo
e, por mais que seja deveras atrevimento,
busco em minha lembrança encontrar teu beijo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Suicídio amoroso

Too Young To Die - Jamiroquai. Clique e ouça.

Não me venha pedir para que morras por ti, porque tu sabes que isto eu não faria. Somos muito jovens para sequer pensar em morrer. Tu já sabes que em ti, eu vi minha ressurreição ereta diversas vezes depois do gozo final e do último suspiro, isto já é uma prova de amor. E que em ti, eu desejo infinitas vezes habitar e colonizar e hastear minha bandeira, determinando, assim, meu território. Todavia, não posso afirmar que morreria por ti, pois não tenho controle de minha vida e jamais a tiraria neste ato mesquinho que é o suicídio amoroso. Não quero me encontrar com Deus, aliás, aprendi assistindo ao filme Constantine que, quem se mata vai pro inferno.

É lá que tu queres me encontrar? É lá que tu queres consumar nosso amor? Não é nenhum feito extraordinário encontrar seu Deus depois de tê-lo descoberto, feito seria perder a oportunidade de sequer conhecê-lo. E tu deverias ler Gonçalves Dias para que tu não me perguntes mais se se deve matar pela nossa reciprocidade e, sim, questionar-se se se morre ou não de amor. Porque se o amor que tu sentes por mim requer um ato de vida ou morte, tu deves parar de ler as tragédias de um certo Shakespeare e começar a ler os romances mamão-com-açúcar de José de Alencar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cadeira Cativa

Era uma vez uma cadeira esquecida pelo tempo. Seus adornos e curvas eram a expressão viva de sua delicadeza adormecida, já suas ferrugens representavam as feridas incuráveis causadas pela intempérie. Ela aguardava ansiosamente seu próximo dono, como alguém que deposita toda sua fé na espera de um novo amor que não tarda em chegar. Ela anseia por contato físico, deseja confortar uma pessoa e sentir, novamente, um corpo em cima do seu. Por ela passaram poetas com suas citações e métricas perfeitas; bêbados com suas marchinhas carnavalescas e suas bebidas fortes embrulhadas em sacos de papel amarrotado; palhaços com as mesmas piadas e truques sem graça; donzelas que não acharam seus príncipes e príncipes que procuram por suas donzelas. Por ela passaram juízes e suas leis, meninos com suas pipas coloridas, dançarinos com suas coreografias e hipocondríacos com suas doenças. Por ela passaram escritores com bloqueio mental, desenhistas com traços meticulosos, esotéricos e religiosos, malandros cheios de lábia e ciganas dissimuladas. Tudo já passou por essa cadeira, mas nada ficou.

* Fotografia: Cristina Carriconde.

domingo, 6 de setembro de 2009

Rubi

Rubi - Babasónicos. Clique e ouça.
Súcubo
"Conheço bem os tês e os quês da sua língua quente e dos seus olhos bífidos. Naja. Desfaço meus enes e cês bem perto do seu ouvido, do jeito que você goza, ri e xinga... Sibila. Bruxa. Invadindo sem tocar com os acordes graves dos meus ombros trêmulos, te encaro pixel por pixel, completamente depilados de vergonha por dez horas de vidas inteiras. E você geme pelo faz de conta de um rubi mal lapidado que acha que partilhou comigo e que na verdade perdeu pra mim sem perceber. Teimosa e leve. Tudo ao mesmo tempo e nada a declarar. Você é assim: minha onde tem que ser sua. Na maldição dos meus dedos ferinos que tingem como navalha essa sua pele tenra, me torno o primeiro a fechar seu sutiã e te tirar do colo mandando ficar quieta. E você obedece." por B.
Íncubo
Eu sei de cor cada fonema seu e reconheço cada sílaba que você faz questão de repetir paulatinamente, mesmo gaguejando às vezes. Sinto a língua subir e descer do céu da sua boca e o ar escapulir entre seus dentes ao pronunciar seus enes e cês compridos. Arrepio nas pausas prolongadas e enfeitiço sua respiração de propósito, só para ouvir você perder o fôlego. Das pedras preciosas que eu apostei naquela noite, somente o rubi ficou contigo. Roubado por suas mãos larápias de dentro de minha própria blusa. Malandro, minha confiança jamais seria conquistada por sua expressão corporal, foi sua voz que impôs a devida deferência muito antes de eu sequer cogitar encontrá-lo. É por isso que posso ser sua sem deixar de ser minha e é por isso que eu te obedeço veemente: porque eu te respeito.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Demônios

Estou inaugurando uma série de posts, organizados no sidebar ao lado, baseados na Lenda Medieval Ocidental que fala dos demônios Íncubo e do Súcubo que se encontram com os seres humanos enquanto estes dormem, com o objetivo de ter relações sexuais com eles e se divertir com seus corpos inertes. Eles usam a energia vital de suas vítimas como alimento, sendo que o Íncubo é o demônio masculino que visita as mulheres e o Súcubo é a versão feminina que vai atrás dos homens. Dessa maneira, os posts foram escritos sob a "influência" de um ou outro demônio e, algumas vezes, haverão posts em conjunto. Espero que apreciem sem moderação, pois são posts um tanto quanto instigantes. Quaisquer dúvidas ou idéias, por favor, não hesitem em entrar em contato. Obrigada pela atenção!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Meu voyeur

Tu Voyeur - Jorge Drexler. Clique e ouça.

Se você me conta que quer ser meu voyeur, paro para imaginar o sabor que sua boca nunca descobrirá. Consigo sentir o percurso que suas mãos nunca farão em meu corpo, o cafuné carinhoso para me ninar em seus braços que nunca existirá e os beijos nervosos que você nunca me dará. Voyeurismo é, na minha opinião, um tipo de tortura apreciada somente por corajosos e destemidos. Encontrar o objeto de desejo e não poder - ou não querer - possuí-lo é um feito admirável. Há de se crer que o voyeur opta por não ter contato físico, pois seu prazer está em admirar e não tocar, quanta insensibilidade, eu diria. Se a vida é uma sucessão de trocas e colonizações, o que assenhoreia seu corpo e seus pensamentos é o elemento mais recente, ou seja, seu último dever, sua última conquista, sua última dor, seu último amor. Todavia, acredito que o voyeur sabe que sua pele retém todas essas sobreposições antigas e prefere não misturá-las comigo, pelo menos, não por enquanto. Tão logo você vive, tão logo você esquece as memórias que seu corpo guarda. E só lhe resta observar o dos outros e, em especial, o meu.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ghost Dog

"In the Kamigata area they have a sort of tiered lunchbox they use for a single day when flower viewing. Upon returning, they throw them away, trampling them underfoot. The end is important in all things."

Em Ghost Dog: The Way of the Samurai de Jim Jarmusch (1999), a personagem Pearline lê o livro Hagakure de Yamamoto Tsunetomo que o protagonista (Forest Whitaker) lhe entregou antes de ser assassinado. O final é tão importante para uma boa história quanto o seu começo. Afinal, sem um princípio não há um fim. Não deixe suas histórias pela metade, aprenda a colocar um ponto final naquelas que precisam de um desfecho. Você só poderá começar o rascunho de uma nova história quando a anterior tiver sido finalizada. Mãos à obra.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Síndrome de Polvo

Fools Like Us - Echo & The Bunnymen. Clique e ouça.

- Diga-me alguma coisa que você jamais diria.
- Eu diria que eu não consigo mais te deixar, mesmo estando longe de ti. Imagina quando eu estiver no calor do teu abraço, ou debaixo das tuas cobertas, ou entre as tuas pernas?
- O problema não vai ser me deixar, o problema vai ser conseguir se soltar de todos os meus tentáculos. Eu pareço um ser humano, mas, na realidade, eu sou um polvo.
- Mal vejo a hora de te descobrir.
- E dentre todas as palavras inconfessáveis, o que você me diria?
- Eu diria que...
- Você diria que um dia pode acabar se apaixonando por mim?
- Eu diria que já estou apaixonado.

Além desse diálogo insone, ando tendo ótimas conversas noite afora.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

domingo, 23 de agosto de 2009

Sonho de Valsa

Valsinha - Chico Buarque. Clique e ouça.

Certa noite, eu não tinha mais palavras para escapar das perguntas inquisitivas dele e, enquanto buscava alguma saída entre a ardósia que cobria o pátio embriagado pelo luar, ele resolveu encostar em mim. Percebi um avanço sutil e discreto através de seu reflexo no chão recém encerado, afastei-me com um passo tímido para trás e, como em uma valsa, no exato instante em que me distanciei, ele se aproximou com um passo à frente. Hesitei em deixar sua mão quente tocar meu queixo congelado - talvez pelo choque térmico, talvez pela falta de respostas -, mas dentre todos os males daquela noite, o toque dele não seria o pior. Ele levantou meu rosto e meu olhar fugiu, procurando algum canto para se esconder.

Durante minutos intermináveis, nossos olhares custaram a se encontrar numa brincadeira de gato e rato sem fim. Entretanto, acabei paralisada por aquelas duas mãos e, em uma única sacudida, fui obrigada a encará-lo mais uma vez. A distância entre nós, finalmente, desapareceu. Logo, não havia mais minutos para contar, não havia mais frio para sentir, não havia sequer luar para iluminar. Ele já não sentia a ponta de seus dedos e eu não conseguia mais discernir em que ponto meu corpo terminava e o dele começava. Foi naquela noite que deixamos para trás o que pensávamos ser e revelamos quem nós realmente somos. E o dia amanheceu em paz.

Cicatrizes

"(...) Dói no fundo até que a cicatrização esteja completa. E, por fim, dói ainda depois, uma dor que bate na memória. E na minha porta haverá sempre alguém, um ser qualquer, que virá a perguntar como se fosse a coisa mais normal "como foi que você se feriu?", ao ver a minha bela cicatriz. A partir desse instante minha dor é - e será - então, revivida. A verdade ao ser contada para o questionador joga o problema para trás, enquanto a mentira acaba por jogar o problema para frente. É o que diz o ditado. Ou dizia. Está certo, devo contar. Mas como custa lembrar dos detalhes.

Já faz um tempo que não sei - e não consigo adivinhar - de onde vem a força ou como nasce a coragem para isso tudo. A ressaca é inconfundível, por mais coragem que se tenha, talvez faça-se necessária. O mar bravio e a tempestade voraz podem não te engolir ou te matar, mas o deixará em pedaços. E em cada pedacinho haverá uma cicatriz para se recordar. O anseio pela cura requer tempo. Requer, antes de mais nada, silêncio. Por isso, por favor, não me pergunte de onde veio essa cicatriz... (...)"

Daqui: Já Faz Um Tempo
* Imagem: I Can Read.

sábado, 22 de agosto de 2009

Monologue

Monologue - She Wants Revenge. Clique e ouça.
Kissing a strange hand, my city like street lamps fade
On the edge of an answer, you weigh lust beginnings are made
Lover, forgive me, my guilt is my only crime
And I'll carry it round, 'till it breaks me down every time

This is the time of night when the moonlight shines down
And we can reveal who we truly are,
Within the darkest most depraved of joys

If your afraid to say, but you'd like to try
Just give me the safe word and take your hand
And smack me in the mouth, my love

Letra daqui.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pequeno aprendiz

Toxic - Mark Ronson ft. Ol' Dirty Bastard e Tiggers
(cover Britney Spears).
Clique e ouça.

Leia meus lábios. Você já me conhece há quanto tempo? Uns dois, talvez três meses, eu presumo. Já está na hora de você saber que existem palavras que possuem um significado duvidoso e que, muitas vezes, não podem ser encaixadas em qualquer frase. Muitas delas não têm sentido para algumas pessoas, mas hoje eu decidi apresentá-las por razões óbvias: eu preciso que você entenda certas coisas o mais rápido possível, pois não aguento mais esperar que você aprenda tudo sozinho. Vamos lá, você consegue me dizer quando você vai usar a palavra limítrofe numa viagem? Ou quando você vai chamar alguém de gamela na rua? Quiçá, quando você vai precisar de um trempe em casa? E quem é enxacoco, você pode ensiná-lo? E aquele boubento, você pode curá-lo? E o pobre proxeneta, um dia pode conquistar seu próprio amor? Vou dar o significado de todas essas palavras, menos o do amor. Para explicar o amor, você terá que parar de ler meus lábios e passar a beijá-los. Está entendendo?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cántame

Cántame - Mercedes Sosa e Franco de Vita. Clique e ouça.

Quando tu não puderes me encontrar e a insônia sequestrar teu sono indeciso, cante alguns versos para a noite. Sei que ela me entregará tua canção. És tão perfeito quanto tua voz que se perde em tua estranheza de tão única que é, em teu sotaque arrastado, em tuas pausas homéricas. Voz que vira brado numa estrofe agitada dos Ramones e, por vezes, transforma-se em oração quando murmura letras da Charlotte Gainsbourg. E mesmo longe de tua voz, posso imaginá-la intacta daqui, sem ruído algum, exatamente como nas lembranças de tuas ligações. "Canta que é no canto que eu vou chegar." Cante mais alto para eu saber que um dia tu vais chegar. Cante, pois ainda aguardo ansiosa um dia poder te escutar. Sei que tua música ressoa entre as estrelas, mas ainda não pude ouvi-la ao pé do ouvido. Creio que a Lua ficou com ciúmes quando soube para quem tu cantavas com tanto fervor e, infelizmente, decidiu ir embora, carregando a noite consigo. Eu, que fiquei na expectativa frustrada de te encontrar, espero um dia inteiro para que, enfim, a noite possa voltar. E nessa minha espera por ti, só me resta cantar.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

500, meu bem

Esse é o meu post número 500. Eu espero preencher o counter com 30 mil visitas até o final de Agosto e é nesse mês que o Crackpot Ideas completa quatro anos de vida. Eu poderia escrever um post bem bonito sobre minha infância ou algum post bem caliente. Talvez um que enumere as vezes em que eu chorei escrevendo post por aqui, mas seria muito triste para uma comemoração. Então, acho que seria divertido compartilhar os posts que eu escrevi rindo da situação descrita ou aqueles que são comentários deixados por mim em outros blogs. Posso falar sobre posts de amores impossíveis entre sertanejos ou vampiros, posso também mostrar os posts que foram depoimentos e os que foram súplicas. Teve post que eu falava comigo mesma e, em outros, eu simplesmente desejava me desfazer de tudo e todos.

Muitos foram pedidos de outras pessoas e outros foram feitos em conjunto. Já escrevi sobre dois tipos de vício: por bebidas alcóolicas e por um certo alguém. Também postei algo sobre meus medos e minhas convicções. Alguns posts eu pedi para esquecer, outros eu não sabia que nome dar, mas os melhores foram os que eu escrevi pra ele ou sobre ele e, em especial, pra ela. Alguns aconteceram de verdade, mas a maioria foi de mentirinha, (só não sei onde esse post de uma lembrança de vida passada se encaixa). Recapitular nunca faz mal e quando a saudade e a vontade de escrever bate, não faz mal deixar algumas linhas de presente por aqui, afinal, elas nunca serão em vão.
Parabéns a todos!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Contagem

Espere, por favor, não conte. Deixe-me adivinhar. Vivemos nesse tempo doido repleto de quases que nunca se concluem, num frenesi por esquinas com os por poucos nos seguindo e num revirar de bolsos que transbordam de quem sabes leves como moedas. Nós fingimos que não sentimos o clima gelado tocar nossas peles e trazer à tona os talvezes, não ouvimos o silêncio chegando devagar e preparando um beijo, não enxergamos as luzes serem apagadas para a nossa fuga. A felicidade poderia ter gritado nosso nome milhares de vezes ao vento, mas estávamos ocupados demais roubando o mundo e matando gente. Certos segredos jamais ficarão escondidos para sempre, o pra sempre sempre acaba e até o bambuzal gritou para todos ouvirem que o rei Midas tinha orelhas de burro. Se nosso amor for tão fatal quanto nós mesmos, cabe à fatalidade dar um jeito nisso tudo. Só em ti eu faço sentido, só contigo eu espero encontrar um caminho, só tu podes contar as pintas em minhas costas. Nossos pecados são perdoáveis se forem por uma boa causa, ou não. Quem procura por absolvição, afinal? Se for para contar, conta direito, um por um. Para começar, conte as leis que infringiremos daqui pra frente só para ficarmos juntos. Se não puder, conte-me quem tu és e para onde vais me levar. Espere, por favor, não conte. Eu adivinho.

* Filme: "À bout de souffle" de Jean-Luc Godard

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Faltou isso aqui:

The First Taste - Fiona Apple. Clique e ouça.

- Eu vou embora.
- Não, não vai não.
- Então, eu posso dormir?
- Dorme, não. O mais gostoso de ficar contigo abraçado na cama é ver seus olhos abertos no escuro. Eles tentam enxergar o invisível e adivinhar o formato das sombras no teto. Gosto de observar esses seus cílios compridos quando estão imóveis, quando não estão varrendo seus pensamentos por detrás de suas órbitas. Posso até decifrar o que essas jaboticabas procuram pelos cantos do quarto.
- Pode nada. Não é você que vive parafraseando o Gilberto Gil na minha música favorita e diz que eu sou incompreensível?
- Você é. Suas jaboticabas, não.
- Vou ao banheiro, você me espera?
- Corre lá, vou segurar a respiração aqui enquanto você não volta. Lembre-se da Fiona Apple e da Eva com a maçã: o Paraíso não pode esperar por muito tempo, senão acaba estragando.
- Eu achava que tudo estragava com o tempo.
- Menos nós.
- Quanta pressão psicológica.
- Toma cuidado, vá pelas sombras.
- Certo, eu deixo você sentir saudade, mas não muita.
- Ok.
- Se sentir saudade, guarde-a para me contar como foi.
- Ok.
- Se não sentir, minta.
- Ok.
- Acho que perdi a vontade de ir ao banheiro.
- E eu quase morri de saudade. Faltou isso aqui, acredita?

Ah, esses diálogos tão meus e tão seus.
Mais papos sobre Olás, sobre a escolha de nossa Direção, sobre nossa Conversa de Botas Batidas e sobre o Moulin Rouge, basta clicar e ler.

domingo, 2 de agosto de 2009

Fusão

Closer - Nine Inch Nails. Clique e ouça.
Íncubo
Cada um em seu canto, decidem se encontrar. Afinal, ela era uma só e ele também. Com as mãos entre as grades, ela estava descalça e o esperava agarrada ao portão de casa como uma prisioneira que aguarda ansiosamente sua visita conjugal. Faz uma tarde quente, daquelas que vestir muita roupa é pecado. Ele chega. Eles se transformam em dois e mal se cumprimentam, caminham em direção à copa jogando conversa fora e ficam em silêncio, um tentando decifrar o outro ou ouvir a batida acelerada dos corações. Ele puxa uma cadeira e ela se senta sobre a mesa de madeira rústica. De um salto, o vestido curto
levanta sem querer, olhos atentos miram o que não deviam ver, mãos inquietas vão de encontro ao desejo latente.

É na mesa que o apetite está e é lá que deve ser saciado. É na mesa que se dá a fome das carnes e na mesa a refeição é feita. Ali na copa, urgem os sentidos e os dois se embriagam em suores e salivas. Seus lábios úmidos sussurram indecências, as mãos escorregam e se apóiam na superfície lisa. As unhas arranham e os dedos carimbam a pele, os pêlos se eriçam ao pressentir a voz do outro ao pé do ouvido, os corpos se contorcem num ritmo frenético que fica cada vez maior. Logo, aqueles que antes estavam solitários, um em cada canto da cidade e que há pouco se tornaram dois - a companhia que deixa de ser singular e passa a ser plural - agora se fundem em um.