Sábado, 4 de Julho de 2009

De sete em sete

Pode ter certeza que os sete ventos não revelarão nenhum milagre na atmosfera terrestre e não conseguirão mover moinhos. Os sete mares não trarão profecias em espelhos d'água e não derreterão mistérios congelados em geleiras subaquáticas. Não adianta mais rodar as sete léguas, pois estas não trarão mais respostas às minhas perguntas e não existirão mais estradas que me levem a algum lugar. As sete pragas do Egito há muito tempo estão adormecidas e não haverão de acordar para causar tempestades de areia em minha vida. Muito menos os sete pecados capitais conseguirão incitar mais caos ao nosso mundo atual e não trarão juízo para os seres humanos. Já procurei nos sete cantos uma saída para essa minha aflição e não encontrei nada que possa me acalmar e resolver o meu problema. Confesso que não foi fácil encarar essa minha busca de sete em sete por tantos lugares e no final descobrir que somente ao tirar os sete véus é que eu conseguirei uma dia, quem sabe, te conquistar.

* Imagem tirada daqui.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Te ganhar ou perder sem engano:

Eu Preciso Dizer Que Eu Te Amo - Cazuza. Clique e ouça.

Escolhíamos nosso papo de uma maneira esquisita: fechando e abrindo a geladeira a noite inteira. E nos apertávamos na cama estreita e passávamos a noite tentando tomar iogurte sem as mãos e limpar o potinho com a língua. Íamos das risadas ao amor e passávamos a vez para as cócegas, então voltávamos para o cafuné e, logo em seguida, para a discussão acerca da arte contemporânea em declínio ou se amanhã iria chover pétalas de rosa. Hoje em dia, quando o sono me falta e a insônia faz companhia ao silêncio, eu me levanto e na ponta dos pés abro vagarosamente a geladeira. Como se isso fosse me fazer pensar melhor. Como se pudesse enxergar nos ovos as minhas crias, nos potes de geléia fechados eu encontraria minhas doces palavras para serem espalhadas por uma faca sem serra e no fundo das latinhas de cerveja encontraria talvez o meu consolo. Essa ânsia de me procurar ali dentro entre os frios e as verduras, em meio àquela luz opaca, sem vida, sem destino, sem nada. Como se tarde da noite eu fosse abrir a geladeira e me deparar com algum resquício solitário seu. Como se eu pudesse encontrar você por lá, talvez atrás do leite desnatado na primeira prateleira do canto direito, e poder finalmente dizer que eu te amo tanto.

Concorda comigo?

In a Manner of Speaking - Nouvelle Vague. Clique e ouça.

Ele me disse que a vida é curta demais para acordar de manhã com a cabeça cheia de arrependimentos e eu concordei. Disse-me para esquecer as pessoas que não me tratam bem e somente amar aqueles que se importam comigo e eu concordei. Contou-me que tudo nesse mundo acontece por uma razão, que as pessoas passam em nossas vidas para causar impactos bons ou ruins e eu balancei a cabeça afirmativamente. Fez-me prometer que se eu tivesse uma chance mínima qualquer, eu a agarraria com os dentes e se alguma situação surgisse com o intuito de mudar a minha vida, para que eu me permita aceitar esses desafios e eu continuei concordando com seus conselhos. No final de nossa conversa, ele enfatizou com um largo sorriso que nada disso seria fácil, mas que ele podia me jurar que tudo valeria a pena. Só que daqui para frente eu teria que deixar de amá-lo e seguir meu caminho. A partir daí eu comecei a discordar...

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Miragem de vapor

Sinta Vontade de Ficar - Canto dos Malditos na Terra do Nunca. Clique e ouça.

Eu deixava a televisão ligada para me fazer companhia quando você não estava por perto, mesmo tirando o volume, acho que o movimento e as cores davam essa sensação de aconchego. Um livro jazia em meu colo e eu ajeitava os travesseiros atrás das costas para me apoiar na cabeceira da cama. Quando me dei conta do cheiro masculino característico que me tomava as narinas e impregnava o quarto inteiro, já era tarde demais. Você estava saindo do banheiro ainda molhado - como eu queria ser aquelas gotas que escorriam e desciam entre seus músculos e pêlos - com uma toalha branca curta enrolada na cintura. Eu devo ter ficado alguns minutos te observando com a boca aberta, porque juro que fiquei sem saliva e, é claro, sem ar. Os óculos pendiam da ponta do nariz e arriscavam cair, levantei a armação até a testa para segurar a franja e coloquei o livro na mesinha ao lado da cama. Desliguei a televisão, deixei os travesseiros caírem e caminhei em sua direção, precisava tocar aquele corpo novamente. Todavia, você desapareceu como miragem que nunca pode ser alcançada, mas o cheiro de vapor da ducha quente ficou no ar a noite inteira me relembrando bons momentos que tivemos juntos naquele box. Por isso eu digo com todas as palavras: não tenha pressa, sinta vontade de ficar por aqui o tempo que quiser.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Peles, mares e saudades

Chega de Saudade - João Gilberto. Clique e ouça.

Ele me apontou a distância até o oceano e me contou uma anedota sobre como essa distância é menor que o calor crescente entre nossas peles e eu fingi que não entendi, porque me disseram que mulher tem que parecer vulnerável. Ele não soube continuar a conversa, então eu lhe dei uma ajuda dizendo que esse limite tão único e tão nosso, que delimitava o começo de minha pele de encontro à pele dele, era nada mais que química de nossos corpos. Ele me encarou com estranheza, mas disfarçou sua admiração, pegou minha mão e me mostrou suas cicatrizes. Aquela aos nove anos com um anzol naquela mesma enseada, aquela outra aos onze por tentar andar de bicicleta na areia e aquela mais acima que eu não me lembro qual foi a travessura de veraneio. Não me recordo, mas respeito cada uma de suas marcas, suas recordações, suas histórias. Prometo prestar mais atenção próxima vez, se houver mais um encontro de verão como aquele, claro. Torço para que sim e, apesar da praia estar tão distante de mim quanto nossas peles, hoje vou encostar a cabeça no travesseiro e dormir com o cheiro do mar nos cabelos molhados.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Vanessa da Mata

Vem - Vanessa da Mata. Clique e ouça.
Vem
Que eu sei que você tem vontade
Que eu sei que você tem saudade de mim
Antes que haja enfermidade
Que eu não me recupere

Mas
Se decidir fazer surpresa
Deixei as chaves embaixo do xaxim
Comprei os doces que devora
Acho que agora não vai resistir

Um espelho pra sua vaidade
Dossel, pena de ganso
É quase um romance
Desligue nossos celulares
Três dias pra um começo, vem.

Sábado, 27 de Junho de 2009

Volta e meia

Volta pra mim? Sei lá como conjuga ou o que significa o verbo voltar, voltei, voltaram. Seguir por onde não se sabe mais ou por onde eu não quero mais enxergar. Dizer o que ninguém ousa mais repetir ou algo que eu não quero mais ouvir. Sentir o que não se pode mais representar ou eu que não quero mais experimentar. Passou-se mar, deserto, florestas, oásis e desfiladeiros. Passou por minha família, meus amigos, meus queridos e chegou até mim, finalmente. Atravessou com ímpeto minha pele, retesou meus músculos, rasgou meus órgãos e mergulhou em minha corrente sanguínea. Atingiu em cheio meu corpo, controlou meus pensamentos, extasiou o espírito, arrepiou os pêlos, deixou os cabelos brancos e trouxe rugas aos contornos. Volta completa e não deixou mais nada. Vamos, siga-me, confia em mim. Por ali, vamos lá. Rua abaixo, para um beco sem saída, aproveite enquanto é tempo ou então, dê meia volta, volte a ser assim como tu és, eu te desafio. Continua, não pára. Vem, mais perto. Vai embora então, medroso. E ele se foi. Se volta? Sei não.

Foto: Francesca Woodman

Sábado, 20 de Junho de 2009

Prophet 60091

2 Wicky - Hooverphonic. Clique e ouça.

Estamos em um bar retrô daqueles que não possuem luzes diretas e o clima é de alcohol and cigarettes, além do neon de cores berrantes. Mesinhas com casais se conhecendo, se entretendo, se tocando. Enquanto isso, ele admira seu cigarro queimando devagar entre seus dedos e brinca com as formas que a fumaça expirada cria no ar carregado. Ao observar o palco, percebe a presença de uma mulher encantadora de vestido apertado e batom vermelho. Ela canta algum blues antigo,
fazendo caras e bocas. Do palco, ela imagina quem será aquele sujeito sozinho na mesa de centro, sem companhia e sem vontade alguma de arrumar uma mulher-de-uma-noite-só. Apesar do interesse mútuo, logo após o show, ela se encaminha ao bar e decide se afundar em um copo de vodka e ele pede mais uma dose de whisky. Afinal, uma taça de vinho não diz que vai ligar e não liga, ou uma dose de tequila não te troca pelo ex. Um litro de licor não diz que é muito jovem para se envolver e uma cerveja não pede um tempo para pensar no que quer. Sim, faço uma apologia direta à bebida alcóolica, não porque não encontro outra saída racional e concreta, mas porque essa saída é absurdamente deliciosa.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Memórias de uma vida passada:

Baby, I'm a Fool - Melody Gardot. Clique e ouça.

Eu fingia que dormia de bruços com os braços embaixo do travesseiro e com o cabelo negro jogado de lado. Sob a cama ainda quente de nossos corpos, somente um lençol branco cobria parte de meu corpo, o resto estava à mostra. Ele havia levantado. Eu o vi vestir a camisa de estampa hawaiana ridícula, mas reparei que ele não a abotoou. Talvez por calor, afinal já era meio dia, talvez por esperança de voltar para debaixo de meu lençol. Vestiu a calça, puxou uma cadeira e a posicionou de frente para a cama e de costas para a janela.

Antes de se sentar, abriu a persiana e raios dourados de sol e perfume de girassóis transbordaram o quarto com sombras assanhadas. Resmunguei, mas ao invés de mudar de lado e ficar de encontro à parede, virei de barriga pra cima. Abri lentamente os olhos e os protegi com as costas da mão, procurando sua silhueta no contraste escuro entre a luz da janela e a quina da cama. Sentado a seu modo na cadeira, ele acendeu um cigarro e em sua outra mão estava a única taça de vinho que eu pude servir na noite passada. Ainda com a marca de batom, minha taça ainda estava pela metade. Fixei meus olhos apertados naquele contorno, mas somente a fumaça do cigarro esboçava algum movimento, ele estava hipnotizado.

Puxei o lençol amarrotado e o enrolei em meu corpo, peguei um lápis na cômoda e fiz um coque no cabelo. Ele não tirava os olhos de mim. Levantei-me e caminhei em sua direção, sentei em seu colo, tirei o cigarro de seus dedos e dei uma tragada, depois tirei a taça de sua mão e dei um gole. Em seguida, segurei seu rosto com as duas mãos e dei um beijo demorado de olhos bem fechados. Coloquei-me de pé, andei até a porta do banheiro sabendo que seus olhos me acompanhavam e antes de entrar, deixei o lençol finalmente cair.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Cuida de mim

Liquid Lava Love - Kevin Michael. Clique e ouça.

Eu tenho algo pra te dar. Algo que junto a ti deixa de ser meu. Esse pedaço de mim soltou-se do meu aconchego e decidiu que quer viver contigo a partir de agora. O que é que tens aí em teu corpo que cativa tanto esse meu eu? Como admiro essa parte corajosa minha que quer escapulir de dentro de mim e deixá-la pra ti como se deixa uma oferenda, talvez um sacrifício. Um jeito só meu de dizer que assim como a amo, amo-te também. Então, toma aqui, fica com essa peça de quebra-cabeça minha que agora é tua. Cuida dela, porque ela deixa de ser minha e passa a ser tua. Cuida de mim que sou tão minha e que, sendo somente minha é que pude um dia ser tua. E, por já termos sido um só, cuida do teu corpo, porque este seu já foi meu.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Página 22

Ainda não sei se sou eu que vejo poesia nas mínimas coisas ou se é a própria que me persegue onde quer que eu esteja. Pois estava eu mexendo numa cômoda antiga, revendo cartas, encontrando textos e declarações absurdas quando um livro há muito tempo esquecido resolve reaparecer. "Contos" do Machado de Assis caiu num baque surdo no chão do quarto e levantou uma onda de poeira. Ao tirá-lo cuidadosamente do chão, uma folha amarelada se soltou e oscilou no ar até repousar em meus pés. Resolvi transcrever o trecho que a página 22 do conto "Almas Agradecidas" queria tanto me contar:
"Prepara o teu coração para receber o golpe que já me feriu e que por muito que ele te faça sofrer, não sofrerás mais do que eu já sofri. (...) Descobri, meu querido amigo, que Cecília me ama! Não imaginas como me fulminou esta notícia. Que ela não te amasse, como ambos desejávamos, já era doloroso, mas que se lembrasse de consagrar os seus afetos ao último homem que ousaria opor-se ao seu coração, é uma ironia da fatalidade.

Não te contarei meu procedimento, facilmente o adivinharás. Prometi não voltar lá mais. Queria ir eu mesmo comunicar-te isto, mas não ouso contemplar a tua dor, nem quero dar o espetáculo da minha. Adeus, Oliveira. Se a fatalidade ainda consentir que nos vejamos, até um dia, se não... adeus!"
O mais tocante é ver a dor do amigo superar a dor do apaixonado. Oliveira vai ao encontro de Magalhães, seu melhor amigo, ao invés de se encontrar com Cecília, a mulher prometida que não o amava o suficiente e que havia se declarado a outra pessoa. Profundo demais.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Quando a roleta parar:

Chegava na porta do Cassino e exibia seu vestido de gala mais bonito. Sentava de lado com uma postura impecável e observava todos aqueles números como quem decodifica um sodoku. Depois de algum tempo, deixava a indecisão de lado - juntamente com sua tentativa de expressão blasé - e apostava todas suas fichas em um único número. Seu sangue fervia e lhe corava a face, sua respiração ficava ofegante e fazia o busto saltar de seu decote e a saliva secava em sua boca trêmula. Será que dessa vez ela sairia milionária dali? Nada, como sempre. Tudo vai embora com a banca: sonhos, desejos, vontades. Estamos sempre apostando nossas fichas e criando expectativas, mas no final, a banca sempre ganha. Logo, saímos desiludidos e fracassados, sem fé em nada nem ninguém, sem forças para sequer pensar em apostar novamente. Voltamos pra casa sem esperança, juntando alguns trocados e criando coragem para que um dia, quem sabe, possamos voltar a apostar no número escolhido da vez. Eu aposto sempre no número quarenta-e-três com todas as minhas fichas e espero a roleta parar. Um dia eu quebro a banca.

Sábado, 13 de Junho de 2009

Diálogos

- Então, o que você achou do Moulin Rouge?
- Não se fazem mais romances como antigamente, vês? Não existem mais amores proibidos ou pessoas que se amam e não podem ficar juntas, ninguém tem mais esses valores. Ninguém luta pelo amor, por aquilo que se quer, por aquilo em que se acredita. Cadê a boemia? Filhos da Revolução? Onde estão? Quando um obstáculo surge no meio do caminho o primeiro pensamento que vem à mente é de desistência, um passo na direção oposta. Parece que ninguém é bom o suficiente para que você corra atrás. Acho que para as outras pessoas é muito fácil encontrar alguém, explorar o que essa pessoa tem de melhor e depois jogar fora. Tudo muito descartável, sem graça, sem razão. Eu queria encontrar um amor desses que venha com um "haja o que houver, eu te amarei" na etiqueta. Afinal, não é isso que todo ser humano deseja? Um amor que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja inifinito enquanto dure.
- Vem cá, dançarinas de can can são bem gostosas, né?
- Menos as que possuem tuberculose.

Adoro esses papos tão únicos e tão nossos.
Mais diálogos esquisitos sobre nossos Olás, sobre a escolha de nossa Direção ou sobre nossa Conversa de Botas Batidas, basta clicar e ler.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Estrondo

Estrondo - 3 na Massa. Clique e ouça.
"Lembra de quando eu vim para cá, a primeira vez? Virei tua vida de cabeça para baixo e você bem mansinho, porque amor quente que nem o meu você nunca teve nessa vida, desse jeito não. É, então vem cá, vem sentir a minha pele em brasa e o gosto forte da minha boca. Faz tudo como se fosse a última vez, faz. Faz porque hoje eu vou embora..."

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Penúria

Sei que até as coisas que me fazem falta estão presentes em meu dia a dia. Como a terra entre suas raízes, quase areia granulada aluindo conchas, talvez tempestade naufragando navios. Tu vens e engoles teu fôlego sem dó, mergulhas em minha carne teus dedos, fazes com que eu não perca teu rosto de vista e não esqueça teu gosto selvagem em minha língua. Eu te entrego as chaves e recebo teu avesso na porta de casa com obediência pulsante, perco o controle com o corpo aberto à entrega, com os olhos que observam essa tua fome voraz de desejos e essa minha ânsia de gemidos, tudo parece perder o sentido, afinal. Teu buscar de sussurros, meu querer de suspiros e logo tu descobres meus infinitos e, principalmente, meus abismos. Aquela falta transformada em penúria e que antes habitava todos os cantos de mim mesma, é preenchida finalmente com saliva e suor.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Algumas certezas

Old Stone - Laura Marling. Clique e ouça.

Quero que me queira. Por tudo o que eu sou e por tudo que eu não posso ser, porque eu não posso ser tudo, mas o que eu sou já é o bastante para fazê-lo feliz. E felicidade está aí, nesses mínimos detalhes que você pode me trazer e me entregar. Ver uma pessoa, ver suas fotos, ouvir sua voz, sentir o seu cheiro e não poder ficar com ela é um martírio. Querer demais ficar junto, abraçar, beijar e simplesmente não poder? É como adorar uma imagem em gesso ou mármore, ajoelhar e pedir e orar e não poder tê-la pra si. Essa ânsia que aperta o peito, que deixa os pulmões sem ar, o estômago revirado, o coração miúdo. Dia após dia, você acorda com o pensamento fixo e dorme com os mesmos suspiros. Todavia, você sabe que vocês não nasceram para ficar juntos. Você sabe que não é para ser. E depois de tantos outros, você percebe que ele nunca é, eles nunca são e nós nunca seremos. Por isso, eu quero que você me queira. Quero aproveitar os poucos momentos e sentir, finalmente, que esse pouco que eu tenho em mãos é o suficiente, por ora.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Márgara, boboneca

Eu te conheci despretensiosamente e logo quis fazer poesia contigo e para ti. Queria te abraçar e encher a boca para dizer que tu poderias ser todas as mulheres que quiseres e que não precisavas ser tão voraz e decisiva, pois tua sutileza era mais bela que qualquer atitude que tu pudesse ter. Queria te dar nomes vários, apelidos, pseudônimos e até hoje não sei muito bem como te chamar quando bate aquela vontade. De todas que conheci, tu és uma das poucas que consegues ser inteira, mesmo com teu tamanho diminuto ou com teu sotaque arrastado que mais parece cantoria. E teu nome é tão incógnito quanto a dona, tão único e peculiar. Não rimarei teu nome, não falarei de teu corpo, não colocarei fotos tuas aqui. Márgara, nome dado para que tu saibas de tua complexidade e para que tu possas ficar satisfeita, pois que de todas as mulheres, tudo o que tu quiseres imaginar, tu podes ser. Podes ser duas de tuas mulheres hoje e mais oito amanhã, ou podes dividir tuas emoções e subtrair teus pesares. Só não quero que esqueças de que tu podes, boboneca.

* Com carinho para Sadflower.

Sábado, 6 de Junho de 2009

Empacote (em pacotes)

Sem Cais - Caetano Veloso e Pedro Sá. Clique e ouça.

Procuro preencher algo que não existe mais com alguma coisa que me faça menos saudosa. Ali, entre caixas e prateleiras, manuseio coisas que me eram importantes e que agora já não são mais. O que me vem à lembrança não são dias, são momentos. E você estava em cada um deles, pelo menos os mais recentes e queridos. Contudo não importa, você não sai mais comigo e eu não procuro mais tocar a tinta fresca que cobre meu disfarce ou a maquiagem que disfarça meu rosto. Depois que você saiu, eu resolvi ligar para saber se estava tudo bem contigo. E te ligar ou guardar essas coisas que me lembram você é um risco que eu corro. Você se tornou meu risco, minha ânsia, meu porquê. E isso é algo que eu não posso mais aguentar. Não posso e não devo. Logo, deixo-te um bilhete carinhoso que diz algo como: eu te avisei que me apaixonaria, agora é hora de dar tchau.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Melhor assim.

Mil Pasos - Soha. Clique e ouça.

Eu acho que tudo começou quando você me perguntou o motivo de eu não o olhar nos olhos e eu desconversei, sorri e disse que o céu estava lindo naquela noite, com uma pintada de estrelas piscando, tudo para não ter que lhe explicar que olhar nos seus olhos era algo íntimo demais e que desse jeito eu ficava sem graça. Na real, eu não conseguia sequer levantar a cabeça. Ficava com os olhos fechados, revirados para dentro de mim, quieta a me perguntar o que acontecia comigo mesma. Hoje, mordo os próprios lábios para engolir as palavras e encurto os dedos para não digitar mais nada. Palavras assustam e eu ainda não aprendi a controlá-las. É com os mesmos olhos escondidos e lábios marcados que eu vou embora, pronunciando seu nome baixinho para não esquecê-lo, lembrando de suas últimas palavras de despedida e retendo seu gosto mais algum tempo em minha boca. E não será mais o meu destino ou as nossas longas conversas que vão contar os dias separados, mas as lembranças que não querem ser perdidas jamais. Logo, não haverá mais o tempo ou outras pessoas para nos afastar e sim a distância. Melhor assim.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Soul Sister

Blues For Mama - Nina Simone. Clique e ouça.

"When you love a man enough, you're bound to disagree. 'Cause ain't nobody perfect, 'cause ain't nobody free..."
Essa música é simplesmente incrível. Com uma gaita maravilhosa que já diz por si só, a voz indescritível da Nina Simone e a letra muito bem escrita faz desse blues um dos melhores que eu já ouvi. Ótima melodia para exemplificar a imagem abaixo que mostra uma mulher cantando, provavelmente a Billie Holiday em uma de suas várias apresentações.
Muito bom esse flickr de graffiti, stencil e colagens.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Linhas

Eu preciso escrever algumas linhas de saudade aqui. Imagina um universo inteiro sem nada, sem som, sem cheiro, sem cor. Agora imagina o inverso, tudo tumultuado, cheio, colorido, barulhento. Das duas uma: eu sinto a sua falta. Esteja meu pensamento vazio ou cheio. Esteja minha mente sobrecarregada ou tranquila, esteja de noite, esteja de dia. Seja abril ou setembro, carnaval ou festa junina. Não adianta brincar com o preto e branco ou uma aquarela colorida. Não te vejo, não te toco, não te sinto. Disse que só seriam algumas linhas e elas aqui estão. Se você ainda existe, fica aqui meu pedido para que apareças, se não, algumas linhas não serão em vão.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Juramento para o Outono

Você é o meu outono e eu te irritei. Preguei uma peça no outono e ele revidou com o frio mais gelado, a noite mais solitária e o vento mais uivante. Você não chegou como uma estação qualquer do ano que devagar vai se acomodando e me envolvendo com uma brisa leve que toca minha pele me fazendo aconchegar em seus longos dias. Você chegou com voraz determinação de revolucionar a temperatura, de me fazer tirar do armário as roupas mais quentes e de tomar mais e mais vinho para aquecer o quê eu não sei, talvez o coração. Juro não te chatear com pergunta alguma se vai chover ou fazer sol ou se suas folhas secas podem ser guardadas dentro de algum caderno meu, juro jurar, apesar de não acreditar em juramento. E quando você se for e uma próxima estação chegar, suas folhas cairão devagar dentro de meus sapatos na beirada da varanda e eu poetizarei o momento dizendo que agora o meu outono resolveu caminhar comigo ou então que o outono não quer mais me deixar. Sim, você é meu outono.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Para você que tem mania de perseguição:

O Mundo É Um Moinho - Cartola. Clique e ouça.

Sei como deve ser complicado, para não dizer frustrante, ler meus textos e não saber se foram escritos pra ti ou para outrem. Todavia, saibas que tenho escrito secretamente coisas muito interessantes sobre tua presença ou a falta dela. Este aqui mesmo é um texto feito pra ti, tem a tua medida exata, da cabeça aos pés. Se tu abres os braços, os verbos caminham entre a tua envergadura, de um dedo médio ao outro. Esticas teus ossos para se espreguiçar na cadeira e minhas palavras te fazem cócegas em cada músculo retesado, escorregam pelas costas, fogem de tuas curvas, descem perna abaixo e repousam no chão pintado. Agachas para amarrar o tênis de duas cores e deixas meus acentos e vírgulas se perderem de dentro de teus bolsos. Sorris sem graça sobre algum assunto bizarro e deixas letras entre os dentes lhe pintarem o sorriso. E quando vais dormir - minha hora favorita do dia - frases sem sentido aquecem teu corpo exausto e, mesmo que tu não saibas desse detalhe sórdido, esse alfabeto aqui é teu, eu só fiz recolher tudo o que caía enquanto tu passavas por mim, pois esse texto todo é teu, já disse, tenho logo que te entregar.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Solibar - Bar da Solidão

Solibar - Alceu Valença. Clique e ouça.

São 30 copos de chopp, são 30 homens sentados. 300 desejos presos, 30 mil sonhos frustrados. Sigo aqui meu caminho e digo pra quem quiser ouvir, hoje não tem mais arriba saia, muito menos o bole-bole há de vir. Agora que a poeira baixou não tem mais arrasta pé, não adianta mais calçar o tamanco, mulher. São 30 rosas de cheiro, são 30 morenas de canto. 300 olhares de desespero, 30 mil suspiros de desencanto. Esse meu peito murcho continua nessa trilha longa e teu cangote não me dá motivo para mais delonga. Por mais que essa vida seja sofrida, não quero mais procurar o conforto do teu chamego até o raiar do dia. Meu xote está por fim selado e eu tô ficando cada vez mais aperreado. São 30 corações sem dono, são 30 lágrimas de solidão. 300 pensamentos de abandono, 30 mil passos sem direção.

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Novo e velho tempo

A Fé Solúvel - Teatro Mágico. Clique e ouça.

Não vou e não quero mais lamentar sobre a mudança que só o tempo traz. Muito já ficou pra trás e o tempo à frente corre sem parar jamais. Sei que já fui novo e ser novo pra mim é ser algo velho, batido, corriqueiro. Nesse exato momento quero crescer, quero viver o que é novo, de novo. O que eu quero mesmo é ser mais que velho. Vês? É uma parábola entre o novo e o velho tempo que se mistura de maneira que não se pode prever o futuro. Quero que entendas que não existe tempo, o tempo não é criado. O que existe é uma invenção chamada relógio. Algo criado para nos seduzir e nos trancafiar. A hora de todo mundo um dia chega. Cedo ou tarde, inesperado ou não, a única certeza que temos na vida é a morte.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Bando AfroMacarrônico

Samba Manco - Kiko Dinucci e Bando AfroMacarrônico.
Clique e ouça.

O que você quer ser quando crescer?

Quando ela era pequena, em meio às milhares de mudanças de casa e de amigos, sua mãe sempre enfatizava que a felicidade era a chave da vida, aquilo que lhe abriria portas e caminhos para seu destino, moveria moinhos para lhe dar energia e acenderia fogueiras para aquecê-la à noite, independente do que os outros digam e façam. Assim, ela cresceu sabendo o que era realmente importante na vida de uma pessoa e, quando entrou para a escola, foi logo questionada por seus colegas e professores sobre o que gostaria de ser quando crescer. Sua primeira resposta foi rápida e objetiva: feliz. Ora, o que mais ela gostaria de ser além de feliz? Boquiabertos com a ingenuidade da garota, disseram que sua resposta era totalmente evasiva e que ela não havia compreendido muito bem a pergunta. Ela sorriu e explicou que eles é que não compreendiam muito bem a vida.

Cálculos

Acompanhe meu pensamento: você tem um tubo de moral todo seu - como aqueles tubos de vida dos personagens de games - e o nível desse tubo depende de como você se comporta. Ou seja, tudo o que você fala e faz conta para aumentar ou diminuir o conteúdo. É assim que eu me sinto em relação às pessoas ao meu redor. Ao andar nas ruas, ao ouvir desabafos, ao sair para dançar, ao conversar. Guardo um registro íntimo dessas lembranças de acontecimentos vários e vou calculando o volume do tanque de cada um. E com você, agora que a ficha caiu, a coisa ficou feia. Não somente pela distância que nos acometeu, mas principalmente, pela frieza que surgiu do nada e nos afastou. Não consigo mais digerir o acontecido, mas em poucas palavras, eu poderia dizer que o anel que tu me deste era vidro e se quebrou e o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.

* Rascunho de texto que eu tinha guardado aqui há algum tempo na esperança de que uma certa pessoa pudesse terminar de escrevê-lo, porém descobri recentemente que não há ninguém melhor para terminar de escrever minhas histórias do que eu mesma, a dona.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Pedra-Papel-Tesoura

Confesso que eu nunca compreendi direito o significado dessa brincadeira. Eu consigo entender como a tesoura de certa forma corta o papel e a pedra, por sua vez, consegue quebrar uma tesoura, mas nunca consegui entender como um papel pode acabar com uma pedra. O que acontece? O papel pode num passe de mágica envolver a pedra todinha e deixá-la imobilizada? Como se prendesse a respiração, sufocasse e ganhasse por asfixia? Se for assim, por que o papel não pode envolver a tesoura antes que ela se abra? Aliás, deixando a tesoura de lado, por que o papel não pode fazer isso com as pessoas? Imagina os papéis dominando o mundo? Livros devorando pessoas, mãos sendo dominadas, cadernos maníacos, origamis ganhando vida. Todavia isso não é possível, pessoal, o papel não consegue fazer isso com nada, nem ninguém. A pedra pode acabar com essa presepada em dois minutos. É por isso que eu sempre coloquei pedra na hora do jogo e se algum engraçadinho viesse dizer que o seu papel ganhava de mim, eu o acertava com o punho fechado no meio do estômago e dizia: "Desculpe, eu pensei que o papel fosse te proteger".

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Ainda não

Meu Amor Meu Bem Me Ame - Zeca Baleiro. Clique e ouça.

Manda o Amor passar mais tarde, não quero mais nada com ele, pelos menos não agora. Ele que resolva procurar outra pessoa em outro dia, não estou com bom humor, muito menos paciência. Todavia, se a Paixão aparecer por aí, faço questão de convidá-la para entrar e tomar um chá. Sem ela eu não sei viver, justamente porque meu corpo precisa de altas doses que somente ela pode me prover. Pois ela consegue fazer meu sangue ferver e pulsar mais vivo em minhas veias, é viciante. Somente a Paixão é capaz de me visitar sem pedir nada em troca. Enquanto ela só sabe me dar e me preencher, o Amor só quer me tirar e me extrair tudo até não sobrar mais nada. Quero que você me veja acender minha loucura, pois só assim enxergará minha sanidade. Por isso que eu repito, chamemos a Paixão para matar nosso desejo, deixa o Amor de lado. Não me ames ainda.

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Domingo, 24 de Maio de 2009

Au revoir, Catito

Não consigo mais falar de Catito e não falar de poesia, assim como não consigo mais escrever poesia sem lembrar de Catito. Eu poderia vir aqui e escrever milhares de palavras bonitas e rebuscadas, mas que de nada teriam impacto, pois uma coisa é certa: ele fará falta. Suas constatações sobre o amor metafórico entre cisnes, patos e águias, seus papos poliglotas e seu groselha-chopp. Lembro-me de nossas conversas noite afora, aquelas sobre eu só conhecer um único homem capaz de amar uma mulher por inteiro e ele enchia a boca para dizer que, além do Chico, havia ele. Catito é uma das poucas pessoas que pude conhecer que é inteiro no que faz, seja em sua música, seja em seus textos, seja em seus sentimentos. E eu imaginava como alguém poderia ser tão inteiro e ao mesmo tempo estar tão dividido. Ele consegue distribuir essa sua poesia onde quer que vá e no que quer que faça e é isso o que mais me cativa, ou seja, sua sabedoria em poder se dividir em vários, mas sem perder sua identidade única, "pero sin perder la ternura jamás". Boa viagem e muita sorte em sua busca por novos e melhores caminhos, quem sabe a gente não se esbarra por essas cruzadas que a vida dá.
Je vais passer à côté de vous. Salut, mon'chèrie!

Sábado, 23 de Maio de 2009

Missing

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Pós-modernismo:

Love Will Tear Us Apart - Joy Division. Clique e ouça.

Love will tear us apart, again. Pois isso que você vê em mim não é tristeza não, eu não sou uma pessoa tristonha. Só sou silenciosamente alegre, guardo em mim mesma essa felicidade tão minha e somente quem me conhece pode saber discernir meu estado emocional inconstante. E eu acho impossível passar indiferente aos seus galanteios. Suas palavras soam como uma esperança desesperançosa que me joga lá no alto, fora da órbita da Terra e que depois me derruba lá embaixo, com um breve intervalo de minutos na atmosfera para fazer aquele frio arrepiante no estômago, antes do baque final. Melhor, suas palavras são como aquela doçura que precede o amargo naqueles chicletes explosivos, sabe? Um docinho no começo, uma delícia ao colocar na boca, mas morde para você ver. O jeito é deixar ali na língua, ir enrolando, saboreando devagar, jogando de um lado pro outro da bochecha, porém chega uma hora que é inevitável não sentir o gosto. Assim, você pára para pensar se deve jogar fora aquele chiclete ardido e não ter que sentir o azedinho fulminante ou - a minha parte favorita - se entrega e morde mais forte ainda, porque gostoso mesmo é fazer careta até o final.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Spanish Guitar

Spanish Guitar - Toni Braxton. Clique e ouça.

E depois de minha visita rápida, mas intensa, levantei o olhar para o horizonte como quem não sabe onde colocar as mãos, que frase dizer, mas principalmente, qual cara fazer. Em um único final de semana pude saborear tantas coisas. E das coisas várias que pude ter contato, teu corpo foi a melhor. Conhecer outra cidade não chegava aos pés de conhecer tuas curvas. Nenhuma rua possui a maciez de tua pele, nenhuma casa possui a abertura de tuas pernas, nenhuma praça tem a doçura e a calmaria de teus olhos. Pude tê-la em meus braços como não tive a ninguém, pude acariciar tua barriga como a uma spanish guitar e pude fazer desenhos de ligue-os-pontos com os dedos em tuas costas. Como queria tê-la mais perto e por mais tempo. Desejei inconscientemente que esses dias não passassem nunca, mas tudo sempre tem que passar, a vida sempre passa: escorre rápido por entre nossas mãos trêmulas e suadas. Nosso grande erro é crer que tudo que é bom de verdade passa como se não fosse aproveitado o suficiente. Queria te aproveitar como aquele verso da nossa música: all nigh long, all night long. Talvez eu fique por mais alguns dias.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Reflexo

A princípio quando olho no espelho vejo o fim e, numa segunda olhada, vejo o começo de tudo. É nesse paradoxo em que me encontro agora: um quê de não saber se sou ou se fui. Não sei ao certo quando me bateu essa congruência, só sei que não me vejo mais sozinha com meus próprios pensamentos, sinto como se dividisse esse espaço com mais alguma outra pessoa. Uma pessoa que talvez não saiba que vive comigo, mas que consome todos os meus vazios. Que me faz despertar na ânsia de encontrá-la, que tira meu sono, meu sossego. Tenho um pouco de medo de tantas sensações. Um medo gostoso. Posso afirmar com toda certeza, que esse receio que me bate subitamente nas madrugadas mais frias - quando busco companhia na imagem dessa outra pessoa nos espelhos da casa - mexe comigo a ponto de acreditar que estou perdendo minha lucidez. Quebro todos os espelhos que encontro. Não quero mais enxergar. Quem sabe assim tudo aquilo desaparece. Hum, odeio me enganar. Prefiro me colocar como louca do que como apaixonada. Tolice. Não faz diferença. Através do espelho podia estar ao seu lado, pelo menos. Não sei se começo ou se termino...

Despedida

The Power Of Good Bye - Madonna. Clique e ouça.

E eu, com um punhado inteiro de perguntas nos bolsos, resolvi passar a vez pra você. Observei seu jeito lacônico com olhos passivos e decidi ficar quieta, justamente por não saber as respostas, não dessa vez. Naquela noite em que o bar inteiro parecia estar escutando nossa conversa, percebi que eu já não era somente eu, o próprio bar se transformara em mim. Eu estava lá, representada nos copos fundos das bebidas e nas risadas rasas das pessoas. Eu, sentada numa mesa de madeira bamba e quadrada, precisava ser o bar, justamente para esvaziar meus pensamentos no eco dos outros. Tudo ali era tão grande, tão amplo e ao mesmo tempo tão vazio. Eu, você, o bar e o burburinho das pessoas, tudo tão desconexo. Depois de um último gole, levantei-me e coloquei as duas mãos ao redor de seu rosto, você não imagina o quão indefeso você parecia. Respondi, por fim, que eu tinha receio em vê-lo partir - o que não era de todo uma verdade, mas era uma resposta, afinal - e que preferia partir antes de você, pois não aguentaria ficar e receber um adeus. E depois de um último e demorado beijo, peguei meu casaco e saí. Despedir-se sempre foi uma tarefa complicada pra mim: nunca sei se olho pra trás ou se continuo em frente sem hesitar. Tenho medo de deixar um pedaço de mim em seu colo, caso me vire para observá-lo.

Domingo, 17 de Maio de 2009

Cheiro

Engraçado como cheiro é coisa única, é como o DNA ou a sua impressão digital. Cheiro é diferente de perfume que, por sua vez, é diferente de aroma ou fragância. Uma pessoa jamais terá o cheiro igual ao de outra, por isso eu digo que teu cheiro é só teu, querido, não tem como mudar isso. Teu cheiro está em mim como uma segunda pele, talvez até under my skin. Teu cheiro é uma mistura deliciosa do que tu és e do que tu queres ser. Teu cheiro me domou os cabelos, colou em meu cachecol e impregnou minha roupa. Teu cheiro é um bando de moléculas assanhadas que me seduzem com o rebolado. Teu cheiro é um conjunto musical que me encanta com o ritmo marcado. Teu cheiro é uma praia deserta entregue às ondas que rebentam na encosta. Teu cheiro é um sarau repleto de poesia, arte e diversão. Teu cheiro é a representação exata do teu sorriso, do teu abraço, do teu beijo. Teu cheiro tem um quê nonsense com chocolate amargo, um ar místico com cigarro barato, um patuá esotérico com ervas selvagens. Não vou tomar banho nunca mais. Teu cheiro agora é meu.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

The Ecstasy of Tera Patrick*

Tera se rasgava inteira ao vê-lo com outra. Sua efusão misturava suas cores em uma aquarela tão bela e voraz que não poderia ser imaginada por mais ninguém. Como poderia ele recitar sobre o amor, coisa que nem ela sabia muito bem o que era, quanto mais ele, um pobretão, pinguço, burro e muito mal amado.

Todavia, ela o xingava porque o amava, mesmo sem saber o que isso realmente significava. Ninguém nunca lhe explicou o que era a paixão e o amor quando bem feito. E assim como o Hulk, transformava-se em uma outra mulher quando o via passear com aquela vagabunda de esquina. Milhares de cenas lhe passavam pela mente e sentia uma vontade crucitante de se descabelar, de arrancar as roupas, de pular, de arranhar e gritar pro mundo inteiro que aquele pé-de-chinelo era dela e só dela. Tera se contorcia e tinha chiliques homéricos, mas se continha em defesa própria e nada dizia a ninguém. Acreditava que mais cedo ou mais tarde ele iria largar a sirigaita e voltaria pra ela. Era isso ou ela planejaria um sangrento assassinado. É-pra-já.

* The Ecstasy of Tera Patrick - James Roper

Futebol kamikaze

É um lance totalmente kamikaze, uma saída tortuosa e íngreme, porém deliciosa. Posso parecer um tanto quanto masoquista, mas me parece que nesse ponto, chego a ficar sem saída. Encho os pulmões para dizer que é inevitável fazer isso que estou prestes a fazer. Vou sofrer de qualquer jeito, vai doer bastante no final, mas é tão divertido enquanto dura. Ah, cansei de tirar meu time fora do campo e perder de WO toda-santa-vez que o gramado estava ruim ou o céu estava nublado. Ainda não choveu, ainda posso jogar. Só-Deus-sabe quantas vezes eu joguei bola descalça debaixo de chuva e me diverti à beça. Eu quero é mais aproveitar enquanto é tempo, experimentar cada centímetro quadrado, matar no peito, ajeitar na coxa e mandar pro gol. Sei que meu tempo é curto, já que estamos nos 35 minutos do 2º tempo, mas quem sabe não rola uma prorrogação? Bom, isso cabe ao juiz, mas também cabe especialmente a você. Eu quero jogar essa partida contigo, quero escalar você pra mim. Topas?

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Franco-atirador

Eu não tenho ciúmes e isso não é um mantra. Também não é auto-confiança ou segurança exacerbada, nem é uma questão de confiar no próprio taco acima de tudo e todos. Eu simplesmente não vejo razão para questionar os princípios alheios, sejam eles quais forem. Sério mesmo, eu quero mais é ser feliz, sem estresse, sem mal-me-queres, sem mal dizeres. Quero é aproveitar a vida e as coisas boas que podem vir com ela. Incomodo-me com certas atitudes ou palavras, com outras pessoas e suas chantagens emocionais, mas acredito na sinceridade de quem está comigo. Haja o que houver, eu estou contigo contanto que você seja franco (atirador) comigo. Rá.

Mania de você

Mania de Você - Rita Lee. Clique e ouça.

Do momento em que eu acordo até o instante em que eu coloco a cabeça no travesseiro, eu tenho vontade de você. Aquela vontade que não tem um nome exato, não tem significado em dicionário algum, não tem previsão meteorológica. Passo o dia me coçando para falar contigo, passo a noite me revirando na cama para dormir abraçada a ti. E essa vontade me persegue nos momentos mais impróprios: no banheiro, na cozinha, na sala de estar, mas é no quarto que ela mais me consome, mais me cutuca, mais me dá água na boca. Engraçado como uma vontade pode controlar seus pensamentos, mas não pode comandar seus caminhos. Creio que, por mais que eu tenha vontade de estar, beijar, amar você, não quero mais mover um dedo para que isso ocorra. Pois que quanto mais você se dedica à vontade, mais ela deixa de ser um desejo e passa a ser um capricho do coração.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Copos de vinho

Com os olhos, ele começou a despi-la. Ela caminhou lentamente até a garrafa no canto do quarto sem tirar os olhos dele e serviu mais duas taças com vinho tinto até a metade. Copos meio cheios, ele diria mais tarde. Como se não suportasse ficar longe dela sequer um minuto, foi ao seu encontro e a abraçou enquanto ela tomava um longo gole do néctar. Sem nenhuma pressa, acariciou-lhe as curvas delicadamente, sentindo cada ponto sensível ao seu toque. Cada suspiro ao pé do ouvido, cada gemido quando alcançava partes íntimas, cada puxão de cabelo. Como se seus olhos não fossem suficientemente bons no trabalho, começou a despi-la de fato. Suas mãos iam de encontro ao corpo dela numa volúpia única, como uma criança que está prestes a abrir o tão esperado presente de Natal e que não perde tempo com a embalagem. A paciência que antes teve ao senti-la perto de si foi substituída pela malícia. E quando o desejo dela já ocupava o quarto inteiro, ele conseguiu observá-la com seus olhos castanhos semi-cerrados doces como jaboticabas. Olhos mais noturnos que aquela mesma noite e mais miúdos que meu próprio coração fica ao contar essa história sobre esses dois copos de vinho que mal foram tocados e que, provavelmente, foram desperdiçados.

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Coração e razão

Coração meu, que me dizes?
E o que achas tu, Razão?
Dêem-me os vossos argumentos.
Debatam as vossas opiniões.
Mostrem-me os vossos caminhos.
E no fim... a qual dos dois darei eu ouvidos?!

Tirei daqui.

Timing

Eu vou te entregar um caderno aberto, só que em branco. Assim tu terás todo o espaço de suas folhas para preencher com tuas idéias, desenhos e argumentos vários. Depois eu vou querer fechá-lo e guardar essas idéias para folhear suas páginas quando eu estiver velha e caduca. Esse é o único jeito para eu entender do quê a vida é feita e o porquê de eu ter esses pensamentos tão meus em relação a ti. Tu adoras me dizer que a vida tem seu timing exato e inabalável. A perfeição de suas palavras que, em contrapartida, referem-se ao universo e além, deixam-me em estado delirante. Pode ser uma teoria obscura e desesperadora, mas tem seu lado preciso e refinado, talvez até genial. Uma finesse oculta que em alguns dias traz a luz e em outros traz de mansinho a noite. E tudo acaba por ter sentido, finalmente, como em um passe de mágica. O importante disso tudo é que, subitamente, percebo que tu trazes, assim como toda essa sua finesse congruída, alegria pra minha vida.

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Primeiro e último

The Next Time Around - Little Joy. Clique e ouça.

Estou de mãos atadas, como sempre. E como eu odeio essa situação. Essa prostração que me invade o corpo e desfaz meus passos. Desliga-me os fios da razão e me faz agir impulsivamente. Sem porquê, ou contudo, muito menos todavia. Disseram-me hoje que eu sou uma medrosa que foge da felicidade. Como fugir de algo que você ainda não encontrou? Homens esperam ser o primeiro de suas amadas e mulheres esperam que eles sejam o último. Mas nunca são, eles nunca são o que nós esperamos deles. E eu estou cansada disso tudo.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Phone

Eu provavelmente teria que usar as teclas: 3, 5, 6 e 8.
A 8 justamente porque minha memória é fraca e eu, provavelmente, gravei alguma coisa importante para ti nesse número. Tenho uma aversão a telefone, não costumo falar muito tempo nele, mas das poucas vezes que o usei para papear contigo, tua voz ficou ecoando durante horas na minha cabeça como a maré: levando e trazendo lembranças boas de quando tu foste meu e eu tua.

Achei esse flickr interessantíssimo. Tem muito mais aqui.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Teimosia

Frank Sinatra - Cake. Clique e ouça.

Andira, mas como você foi teimosa agora. Daquela teimosia boba e insossa. E foi mesmo, aliás foi não, você é. Você tem que aprender a engolir essa sua característica irritante como pão seco sem copo d'água para ajudar a descer goela abaixo. Por que você tem que ser sempre tão grande, se isso faz com que você não caiba em lugar algum? Essa imensidão que você criou para se encontrar é totalmente paradoxal, pois que, ao invés de desvendar-se, você acaba por se perder mais e mais em seus labirintos escorregadios. Você mergulha em suas palavras com um copo de vinho cheio até a borda e acaba decifrando olhares vazios dele ou recriando outros de uma pessoa qualquer. Não esqueça que desse jeito que você se fez, não há ninguém que consiga te alcançar, ninguém poderá te ter ou te tocar sem questionar essa sua extensão. Quero que saiba, meu bem, que você não precisa se diminuir para ser exata, basta guardar essa ariana que você tem dentro de si e apaziguar os ânimos. Vem cá, encosta sua cabeça aqui no meu ombro e deixa de ser teimosa, vai.

Vestimenta

Insististe tanto que resolvi me desfazer de ti e acabei por me despir não somente de minhas ilusões, mas de tua pele opaca e de minhas roupas sujas e pesadas. Desci nua a ladeira e me dirigi ao beco estreito de pedra escorregadia, cheguei à praça descabelada, louca, desvairada com os braços pra cima a sentir o vento contornando meu corpo. Assim, a rua deserta avisou o mundo do acontecimento recente e este começou a tentar me vestir com os resquícios dos últimos raios de sol da tarde, a lua que começou a pintar o céu, envolveu minhas costas com sua energia ludibriante e as luzes da cidade começaram a abotoar minhas curvas. Como nenhuma tentativa de me cobrir foi satisfeita, decidi vestir poesia nessa noite fria de outono, pelo menos ela me aquece e não me expulsa de minha própria casa quando mais preciso de seu aconchego.

Transplante cardíaco

Você não pode dar licença para seu coração se aventurar por qualquer coisa ou pessoa por mais interessante que seja. Pois quanto mais você faz isso, mais forte ele começará a te comandar e então ele se tornará tão grande e independente que te fará correr entre bosques, subir em todas as árvores, escalar a mais alta e atingir o céu com os braços e cabelos. Fará com que você saia durante o meio da semana sem nem pensar no amanhã, sem usar a razão, esquecendo de seu antigo companheiro, o cérebro. Fará com que você mergulhe o mais fundo em suas vontades contidas e segredos escondidos, fará com que cada palavra atinja um significado oculto e que seja motivo suficiente para beijos longos e sexo (amor?) quente e demorado. Esse foi o mal do homem. Aquele Homem quis deixar seu coração tomar a direção que lhe fosse sentimentalmente favorável. Deixou as rédeas de sua vida nas válvulas desse órgão tão inquietante e imprevisível. Sozinha aqui, penso: favorável para quem, cara pálida? Só se for favorável para a equipe médica de transplante cardíaco.